Nos 70 anos da sua morte, recordando Teilhard cientista

Um dos momentos altos na carreira de Teilhard de Chardin como paleontólogo, foi a descoberta do Sinantropo, ou o Homem de Pequim, em 1929, na caverna de Choukoutien, perto de Pequim.

Reconstituição do busto do Sinantropo, feita pela escultora americana residente à época em Pequim, Lucile Swan

 Trabalhando naquela época para o National Geological Survey of China, em Pequim, Teilhard fazia parte duma equipa técnica que reunia cientistas europeus, americanos, canadianos e chineses. Um dos locais que estava a ser explorado por esta equipa na busca de fósseis humanos era a gruta de Choukoutien, a poucos quilómetros de Pequim. Desde 1921, antes da chegada de Teilhard à China, já um desses cientistas, o Dr. J. G. Andersson, tinha identificado o local como sendo uma provável jazida de fósseis humanos, tendo-se dado então início às escavações. Em 1926, são encontrados os primeiros vestígios, dois dentes aparentemente humanos, o que faz desencadear um significativo acréscimo de actividade no local. Sob a direcção do cientista chinês Dr. W. H. Wong, director do National Geological Survey of China, e beneficiando duma importante subvenção da Fundação Rockfeller, o Dr. Davidson Black lançou em força os trabalhos de campo e de laboratório, que se desenvolveram a um ritmo inédito, a partir de 1927, levando à descoberta, em 1929, do primeiro fragmento de crânio, identificado como sendo dum ser humano e que veio a ser pela equipa baptizado de Sinantropo (homem da China), também muitas vezes designado por Homem de Pequim.

A revista Études, publicação periódica dos jesuítas em França, no seu número de 5 de julho de 1937, publica a memória científica destas investigações, da qual foi autor Teilhard de Chardin. Traduzimos, a seguir, alguns excertos desse documento que atestam não só o grande significado que estas descobertas tiveram para os avanços da antropaleontologia em geral, mas também o papel que o próprio Teilhard teve no acontecimento.

Numa nota de pé de página ao capítulo do documento “Origens da descoberta do Sinantropo” pode ler-se: O material recolhido é preparado e estudado em Pequim, em dois laboratórios, e a sua descrição aparece gradualmente nas publicações do Serviço Geológico da China. Ver, em particular, a memória ‘Fossil Man in China’, pelo Dr. Davidson Black e eu próprio.

E no próprio relatório pode ler-se:

Além dos restos de Sinantropo, encontra-se enterrado no ossuário de Choukoutien um enorme número de animais fósseis, circunstância, claro, muito favorável para nos ajudar a fixar a idade das jazidas. Nesta fauna, na maior parte formada por espécies extintas, podem distinguir-se duas partes: aquela formada por animais que viveram na caverna e a das suas presas. 

Ao primeiro grupo (além do Homem), pertencem: uma hiena de tamanho muito grande, extremamente comum, grandes felinos (tigres, panteras e, mais raramente, o Machairodus com caninos de sabre); um urso grande e outro pequeno, etc.

Do segundo grupo, representado sobretudo por membros e crânios quebrados, constam: uma avestruz, um grande cavalo, duas espécies de rinocerontes, um elefante, um enorme camelo, um antílope de cornos espiralados, um búfalo, carneiros selvagens e um número considerável de cervos, alguns parecidos com os cervos sika actuais, os outros análogos ao alce gigante Megaceros, do quaternário da Europa, mas com uma armadura mais curta, mais larga, e com ossos da face monstruosamente espessos.

O estudo paleontológico deste conjunto tem correspondência a outras considerações fisiográficas e litológicas, permitindo atribuir ao enchimento da caverna uma idade quaternária antiga. Nessa época distante, velha de alguns quatrocentos mil anos, a China do Norte, que havia então sido sobrelevada por um movimento do soclo asiático, cobriu-se de limos avermelhados, destinados a receber, numa era geológica posterior, uma espessa camada de loess cinzento.

É este o quadro impressionante da antiguidade em que nos aparece o Homem das terras vermelhas da China, o Sinantropo.

[…]

Pertencente a esta categoria, possuímos, neste momento, cinco crânios (com a face incompleta), os três últimos, adultos, encontrados em dezembro de 1936; fragmentos importantes de três outros crânios; uma dezena de maxilares mais ou menos completos (de jovens e adultos); muitos dentes isolados.

A totalidade representa uma trintena de indivíduos. […] E, coisa curiosa, não foi até agora encontrado nenhum elemento de esqueleto além dos crânios ou fragmentos de crânios acima referidos, com excepção duma primeira vertebra cervical, uma clavícula e um fragmento de úmero. Só cabeças, praticamente nada mais do que cabeças. Nós teremos que nos debruçar mais tarde sobre esta circunstância enigmática.

Outro facto importante: desde a superfície até às zonas mais profundas da jazida, os fragmentos do Sinantropo aparecem em relação com níveis culturais bem definidos, contendo cinzas abundantes, ossos calcinados e quebrados, e pedras distintamente lascadas, ainda que sumariamente.

[…]

Uma questão se coloca: situando-se tão afastado, pela arquitectura da sua cabeça, do Homem actual, era o Sinantropo inteligente?

À primeira vista, o problema de saber se o Sinantropo era um ser pensante parece imediata e positivamente resolvido pelas próprias condições do seu ambiente envolvente: fogo, os utensílios. […] Não se encontram, na jazida de Choukoutien, provas abundantes de inteligência?

[…]

Na fase actual das pesquisas, parece ser sensato considerar o Homem de Pequim como um ser em que já se teria acendido, e desde há muito, a chama do pensamento – seria já um Homo faber – caminhando de pé e servindo-se das mãos, tal como nós.

Uma vez admitido este ponto de vista, a posição antropológica do Sinantropo torna-se bastante clara. Com o Pitecantropos de Java, seu irmão e primo, ele representaria, no Quaternário inferior, um muito velho grupo humano, localizado na Ásia sudeste – grupo retardado, é possível, e, por conseguinte, talvez contemporâneo de outros tipos mais progressivos, tais como o Homem queliano (esse desconhecido…) de África e da Europa ocidental – mas membro, decididamente, da grande família humana.

[…]

Estes resultados favorecem, pelo menos duma maneira geral, as vistas do transformismo sobre as origens do tipo humano. Mas, por outro lado, afirmemo-lo com insistência, eles não ameaçam de forma nenhuma (bem ao contrário) uma concepção espiritualista da humanidade. O Homem, ao mesmo tempo que se enraíza cada vez mais no grande passado, tende a tomar, pelas suas propriedades únicas, um lugar preponderante nas construções da ciência moderna: cada vez mais, as suas energias psíquicas, individuais e sociais, aparecem, para o físico tal como para o biólogo, como uma das grandes forças do universo. Não serão duas maneiras complementares do espírito para tudo dominar e preencher? O pensamento não seria o rei do mundo se não detivesse, por si, todas as fibras, mesmo as mais humildes, da matéria.

Para quem sabe ver, a descoberta do Sinantropo, unindo mais intimamente a Homem à terra, não é senão um novo traço que vem ampliar a importância suprema que toma, aos nossos olhos, na natureza, o «fenómeno humano».

Este pensamento com que Teilhard fecha a sua memória científica sobre o Sinantropo não pode deixar de nos fazer considerar que era uma matéria nele em maturação desde há muito e que, daí a poucos meses, meteria ombros ao monumental trabalho que constituiu a criação da sua obra maior, aquela que teria exctamente por título «O Fenómeno Humano». Aliás, já antes, em 1928 e em 1930, ele tinha escrito dois ensaios a que deu o mesmo título, mas a maior proximidade à sua obra maior é-nos dada pela expressão «para quem sabe ver», se nos recordarmos que ele intitula o seu prólogo de «Ver», e que o inicia com a frase «Estas páginas representam um esforço para ver e fazer ver o que vem a ser o que exige o Homem se o colocamos, todo inteiro e até ao fim, no quadro das aparências». E, ainda, faz-nos reflectir também em como Teilhard, mesmo quando estava a tratar de ciência, não se desprendia do sentido espiritual que ele encontrava em todas as coisas.

 

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