NEWSLETTER 12 – ABRIL 2025

a abrir…

Conferência de D. Manuel Clemente
No passado dia 21 de março, estivemos na Brotéria, espaço jesuíta de Lisboa, para escutarmos uma conferência que o Senhor Cardeal D. Manuel Clemente, Patriarca emérito de Lisboa fez, a pedido da nossa Associação. O Senhor D. Manuel partilhou, com uma audiência de mais e 40 pessoas, as suas experiências de juventude, nos anos 60, ao tomar contacto com a figura de Teilhard de Chardin, e recordando alguns dos momentos em que também ele pôde “Rezar com Teilhard”. Este é o link para visionar a gravação da conferência.

SUMÁRIO

 

| EFEMÉRIDE

70 ANOS DO FALECIMENTO DE TEILHARD (Nova Iorque – 10 abril 1955)

A MORTE DE TEILHARD
Foi em Nova Iorque que vi o Padre Teilhard pela última vez, alguns dias antes do Natal de 1954. Achei-o abatido e stressado. Mas não imaginava que nunca mais voltaria a vê-lo. Regressei a Chicago, onde tinha começado uma investigação científica. Telefonávamo-nos regularmente para darmos notícias um ao outro. No domingo de Páscoa de 1955, informaram-me pelo telefone da sua morte súbita. Que desgosto! E que mudança!
O domingo de Páscoa tinha sido um dia de alegria. A grande cidade estava banhada de luz primaveril. As avenidas cheias de gente a passear. Cada um celebrava, à sua maneira, a ressurreição de Cristo. Contrariamente aos seus hábitos, Teilhard tinha assistido à missa solene em Saint Patrick. Ele adorava sentir-se no meio da multidão, amigo como era da humanidade inteira. De tarde, tinha assistido a um concerto e amigos seus tinham-no levado a tomar o chá tradicional em casa deles. Estava junto duma janela a folhear um livro quando lhe vieram anunciar que tudo estava pronto. Ele pousou o livro, deu alguns passos e tombou, inconsciente. Após uns momentos, abriu os olhos e perguntou onde estava. «Não me recordo de nada», disse, «this time it is really terrible!». Foram as suas últimas palavras. No domingo anterior, Teilhard tinha declarado em público: «gostaria de morrer num domingo de Páscoa». Foi o que aconteceu, de maneira absolutamente inesperada.

Campa de Teilhard de Chardin,
cemitério jesuíta de Poughkeepsie, NY

Cheguei na manhã seguinte. Era segunda-feira, 11 de abril. Ele estava exposto na capela dos Padres do colégio de Santo Inácio, Park avenue. Fiquei com ele um longo momento, meditando uma das suas orações, contida em «O Hino do Universo».

As exéquias tiveram lugar de manhãzinha, na terça-feira. A nave da igreja estava quase vazia. Não houve hinos, nem alocuções, nem música, nem mesmo o comovente «In Paradisium» que se canta geralmente para acompanhar um corpo ao cemitério. Foi sepultado em Saint-Andrew-on-Hudson, onde os Padres Jesuítas são sepultados. E é aí que ele repousa para sempre. A cerimónia desenrolou-se num espírito de desprendimento, nobre e impressionante.

[De uma conferência proferida no dia 1 de abril de 1987 pelo grande amigo de Teilhard de Chardin, Pe Pierre Leroy sj, por ocasião da inauguração do Centro de Estudos Teilhardianos da Universidade de Georgetown, Washinton D.C.]

 

| AGENDA

18º RETIRO ANUAL TEILHARD DE CHARDIN
No fim de semana de 23-25 de maio de 2025, realiza-se o nosso 18º Retiro anual. As inscrições podem ser feitas até ao dia 16 de maio, para o email: teilhardportugal@gmail.com
Terá lugar, como habitualmente, na Casa de Exercícios de Santo Inácio (Rodízio, Praia Grande, Colares) sob orientação do Pe. Vasco Pinto de Magalhães sj. O tema escolhido foi «O Cristo Cósmico». Para mais detalhes, ver AQUI

ASSEMBLEIA GERAL
A Assembleia-geral da AAPTCP irá realizar-se durante o mês de abril para aprovação do relatório e contas do exercício de 2024 e plano e orçamento para 2025. Os sócios irão ser convocados para uma sessão por zoom, a ter lugar para esse efeito.

COMEMORAÇÃO DAS DATAS DE NASCIMENTO E MORTE DE TEILHARD (1 de maio, 10 de abril)
A fim de comemorarmos estas importantes datas, venho anunciar-vos que nos reuniremos no dia 10 de abril próximo, para celebrarmos a Eucaristia com o Pe. Vasco Pinto de Magalhães sj, às 19h, na Igreja da Encarnação, ao Chiado. Recordaremos Teilhard lendo alguns textos da sua «A MISSA SOBRE O MUNDO».

 

| VIDA DA ASSOCIAÇÃO


SEMINÁRIO 2024/2025

Desde o dia 20 setembro de 2024, está a funcionar este Seminário, em que, por zoom, nos encontramos mensalmente para ler e comentar textos de Teilhard de Chardin. Ocorreram já seis sessões, estando a próxima agendada para o dia 22 de abril. A 8ª sessão, a efectuar em maio de 2025 em data a indicar, será a última do presente ano ‘lectivo’. O Seminário prosseguirá em setembro, em dia a fixar oportunamente. Quem estiver interessado em participar e receber informações das sessões pode fazer a sua inscrição (grátis) para o email teilhardportugal@gmail.com
As gravações das sessões anteriores podem ser visionadas AQUI

BIBLIOTECA TEILHARD ON-LINE

No separador do nosso site Ler Teilhard – Ler aqui (português) – Livros, encontra-se um conjunto de obras, de e sobre Teilhard, que podem ser ali lidas na íntegra. Ao darmos seguimento a esta iniciativa, estamos certos de proporcionar um valioso serviço aos cibernautas que nos visitam e de enriquecer, assim, ainda mais, os nossos conteúdos. Para facilitar o acesso a este acervo, logo na primeira página do site estamos a colocar as capas e os títulos, à medida que o vamos alargando com novas obras, bastando um clique sobre cada uma delas para a abrir de imediato e, assim, permitir directamente a sua leitura.

 

| A VIDA DE TEILHARD DE CHARDIN, EM BD

Pierre Teilhard de Chardin, Padre jesuíta, homem de ciência e filósofo, nasce no castelo da família, em Sarcenat, Clermont-Ferrand (Auvergne, França) a 1 de maio de1881 e morre em Nova Iorque, no dia 10 de abril de 1955. Adaptada da brochura «Pierre Teilhard de Chardin» [Croyants de Tous Pays, Éditions Fleurus, UNIVERSMEDIA, Paris, para FONDATION TEILHARD DE CHARDIN], oferecemos-vos (sobretudo a pensar nos mais novos), uma sugestiva biografia de Teilhard de Chardin, apresentada em BD, de que iremos inserindo sucessivamente as diversas pranchas.

Eis aqui todas as NOVE pranchas já publicadas. 

PRANCHA 10

| PUBLICAÇÕES

Primeiros passos com Teilhard de Chardin, Pe. André Picard

O nome do Padre Teilhard de Chardin é cada vez mais conhecido. Mas o conteúdo do seu percurso e das suas descobertas permanece ainda muitas vezes um tesouro escondido. Contudo, o pensamento e a espiritualidade do Padre Teilhard, em concordância com as mutações dos tempos modernos, poderia esclarecer muitos dos nossos contemporâneos nas suas interrogações sobre o Homem e a sua relação com a ciência e a fé. Este livrinho apresenta-se como uma primeira iniciação à reflexão e às convicções do sábio jesuíta que foi o Padre Teilhard de Chardin.

O autor é o Pe. André Picard, padre diocesano de Bayeux et Lisieux. [Ed. Saint-Léger, França, 2013]

Considerando esta obra, editada em França em 2013, um excelente meio de fazer uma introdução ao pensamento de Teilhard de Chardin, decidimos realizar a sua tradução e passar a transcrever, neste espaço, sucessivamente os seus diversos capítulos e partes. Assim, após termos apresentado na Newsletter 9 a Introdução e o Prefácio, e, na Newsletter 10, o capítulo 1, intitulado “Teilhard e o seu tempo”, e o capítulo 2, intitulado “O Fenómeno Humano”, incluímos agora aqui o 3º capítulo, a que se seguirá, na próxima Newsletter, a Conclusão da obra:

3 O diálogo entre a Evolução e a Fé

O padre Teilhard de Chardin foi um sábio reconhecido e reputado: as missões que lhe foram confiadas e as obras que produziu dão disso testemunho. Mas ele era também, ao mesmo tempo, um homem de fé, cuja fidelidade, repetidamente posta à prova, foi exemplar.

Na sua pessoa, a ciência e a fé encontraram-se e confrontaram-se, numa época em que a Igreja não admitia quaisquer tentativas de diálogo entre estas duas realidades. Teilhard (como vimos) não escapou à suspeição da cúria romana. Pagando o preço da incompreensão, do sofrimento e da renúncia, manteve o seu esforço de diálogo e de síntese que ele viveu não somente como um exercício de inteligência mas, sobretudo, como uma experiência espiritual de grande alcance. Procurou pontos de convergência, lugares de interpelação mútua entre as descobertas da ciência e as afirmações fundamentais da fé. Pois ele estava convencido de que como acontece aos meridianos na proximidade do polo, ciência, filosofia e religião convergem necessariamente na proximidade do todo. Convergem, digo bem, mas sem se confundirem e sem cessarem até ao final de abordarem o real sob ângulos e em planos diferentes (O Fenómeno Humano, pág. 18, ed. Seuil).

Numa outra obra, Teilhard escreve: Fé em Deus, Fé no Mundo: essas duas energias, fontes uma e outra dum élan espiritual, devem poder cumprir-se eficazmente numa resultante de natureza ascensional (L’Avenir de l’Homme, tomo V, Obras Completas, ed. Seuil, pág. 103).

Em três breves parágrafos, tentemos sublinhar alguns aspectos importantes do diálogo interactivo entre fé e evolução, na experiência do nosso jesuíta.

Os caminhos cruzados da evolução e da fé

As descobertas modernas em geologia e na arqueologia mostram-nos que a história humana se desenrola seguindo um eixo orientado no sentido dum ultra-humano, ainda impreciso. A humanização do homem está longe de ser acabada e a sua marcha em frente continua a espantar-nos (ou, quem sabe, até a apaziguar-nos).

Ora, diz-nos Teilhard: «para os espiritualistas (seja do Oriente ou do Ocidente), um ponto não oferecia dúvida: se havia para o homem um caminho possível no sentido de mais vida, essa via só poderia ser conhecida sob a forma duma subida “na vertical”, fora das zonas materiais do mundo. Assim, subitamente, uma linha de elevação se descobre, totalmente diferente. ¿A super-vida, a unificação, a saída, tão sonhadas, tão procuradas até aqui no sentido do Para-o-Alto, na direcção de algum transcendente, não seria antes um Em-Frente, quer dizer, em prolongamento das forças imanentes de evolução, a que se encontra e a que está para vir?» (L’Avenir de l’Homme, tomo V, Obras Completas, ed. Seuil, pág. 342).

¿Será, então, necessário escolher entre o Para-o-Alto e o Em-Frente ? ¿Será preciso abandonar um em proveito do outro? ¿Haverá contradição entre a visão cristã do mundo e as perspectivas abertas à evolução?

A única forma de resolver o dilema aparente é afirmar e pôr em prática a convicção de que o homem não se eleva para o Alto se não marchar resolutamente em Frente. É através do seu esforço de humanização que o homem se encaminha para o seu destino eterno.

«O Para-o-Alto cristão incorpora-se (sem se imergir nele! mas sobrenaturalizando-o) no Em-Frente humano» (Teilhard). A fé não se desenvolve, pois, exteriormente a um mundo que se vai fazendo: pelo contrário, ela penetra as realidades terrestres, iluminando-as e alimentando-se delas.

A experiência pessoal de Teilhard e os seus ensinamentos colocam-nos no caminho dum diálogo permanente entre a luz que nos vem da fé e os compromissos que vamos assumindo com vista à organização do mundo. Podemos tentar explicitar um pouco esta relação entre fé e dados da evolução (pelo menos sobre alguns pontos) na óptica de Teilhard de Chardin.

A investigação científica interpelou e purificou a fé:

    • a dinâmica da evolução, reconhecida e aceite, fê-lo ler a Bíblia de outro modo, particularmente os primeiros capítulos do Génesis;
    • a hipótese (e mesmo a certeza) dum aparecimento progressivo do homem, sem dúvida em locais diversos, modificou a sua concepção de pecado original;
    • o muito forte laço entre matéria e espírito colocou-o na senda de uma espiritualidade eminentemente de incarnação;
    • a descoberta das solidariedades humanas no tempo e no espaço acentuou a dimensão social da sua fé;
    • duma maneira geral, a tomada em conta da evolução e das suas consequências antropológicas introduziu uma margem de espírito crítico na formulação das verdades da fé.

Por outro lado, os dados da fé aclararam e transfiguraram as descobertas científicas de Teilhard:

    • a fé tornou-se uma espécie de chave de leitura para a investigação científica; a evolução progressiva do mundo e a ascensão do homem em direcção ao ultra-humano inscrevem-se no projeto de Deus, tal como, por exemplo, nos revela S. Paulo: «Deus fez-nos conhecer o mistério da sua vontade: reunir o universo inteiro, tudo o que está nos céus e tudo o que está na terra, sob um único chefe, Cristo» (Efésios 1/10);
    • a Bíblia, no seu conjunto, revela ao homem, que procura compreender, o sentido e o termo da criação e da evolução.

No global, o crente descobre na luz da sua fé o desenrolar do projeto divino, com admiração, humildade e acção de graças.

Cristo no princípio e no termo da evolução

Como dissemos no segundo capítulo, o universo e o homem, no seio daquele, progridem, no decurso de longas etapas, no sentido da consumação das suas orientações em direcção à vida. O homem, em particular, está numa espera activa duma plenitude e dum florescimento que ultrapassam as possibilidades das suas forças naturais.

É precisamente aqui que se situa, na síntese teilhardiana, o papel de Cristo incarnado, de quem podemos dizer que está, simultaneamente, no início e no termo da evolução. Quando dizemos que Cristo incarnou, afirmamos que ele assume as realidades terrestres e carnais ao mesmo tempo que os valores espirituais em que o homem é moldado: a este título, ele é «o Cristo cósmico». Toda a criação, matéria e espírito, se encontra resumida e unificada na pessoa de Cristo. Como diz S. Paulo na epístola aos Colossenses: «Nele tudo foi criado nos céus e na terra, os seres visíveis e também os invisíveis… tudo é criado por ele e para ele e ele está acima de tudo; tudo é mantido nele… Aprouve a Deus fazer habitar nele toda a plenitude e tudo reconciliar por ele e sobre a terra e nos céus» (Colossenses 1/16-20).

Para Teilhard de Chardin, Cristo é o tipo do homem perfeitamente consumado: ele é o ponto Ómega, o ultra-humano, em direcção ao qual a humanidade se encontra orientada pelos caminhos duma evolução que se faz com os vagares do tempo geológico.

Nesta perspectiva, pode dizer-se que Cristo cumpre uma missão quádrupla.

Cristo revelador
Revela ao homem «quem» ele é realmente, descobre-lhe a sua verdadeira identidade e finalidade: Ele é o homem (Ecce Homo, disse Pôncio Pilatos). É ao contemplá-lo e segui-lo que o homem se humaniza.

Cristo libertador
Desde logo, Ele não é o que vem liquidar a dívida do pecado, mas aquele que vem consolidar a liberdade humana, dissipando o medo em favor do amor e da confiança. Ele ajuda o homem a cumprir-se na linha da sua vocação de imagem de Deus.

Cristo, polo de atracção
Ele é o termo para o qual convergem todas as coisas e toda a humanidade: «Quando eu me elevar da terra, atrairei tudo a mim» (João 12/32).

Deixar-se seduzir por Cristo é colocar-se no caminho da consumação.

Cristo, princípio de ressurreição
Ele restitui força e saúde àqueles que desfalecem, que se «perderam» ou que vergaram sob o peso do fardo. Acompanha, com a sua presença e o seu apoio, aqueles e aquelas que se esforçam por humanizar o homem. Ele restitui a esperança e a vida àqueles que se julgam aniquilados.

Através destas breves notas, vê-se que Cristo, Verbo incarnado, tem um lugar eminente no processo da evolução que ele conduz a seu termo. Cristo está no âmago do mundo e no coração da humanidade que ele dirige, através dos imprevisíveis da história, para o pleno desabrochar dos germes de vida aí contidos desde as origens. «Deus deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade, o desígnio generoso que tinha determinado realizar por meio de Cristo. Esse plano consiste em levar o universo à sua realização total, reunindo todas as coisas, tanto nos céus como na terra, tendo Cristo como cabeça e chefe». Assim se exprime S. Paulo em quem o Padre Teilhard muito se inspirou. (Efésios, 1/9-10).

Não há, pois, contradição (há convergência) entre a dinâmica da evolução e a missão confiada a Cristo, o Verbo Incarnado; este assume na sua pessoa (corpo e espírito) a espera e a esperança de toda a criação que ele vem culminar e transfigurar.

A fé não é um sonho

Se Cristo não é uma abstracção, mais ou menos mítica, mas se é a manifestação de Deus numa humanidade bem concreta, ela mesma saída da terra, compreende-se que os discípulos não possam viver como se fossem puros espíritos libertados de todas as contingências terrestres.

A fé não é uma realidade volátil: ela é um empenhamento de toda a pessoa que impregna todo o tecido da vida. Esta convicção encontra-se expressa em diferentes obras de Teilhard, particularmente nas reflexões sobre O Meio Divino (1925).

Descobrimos aí que toda a experiência humana na sua diversidade pode alimentar e desenvolver a relação com Deus, o que é a própria expressão da vida cristã. Nesta existência, Teilhard distingue duas vertentes complementares e fundamentais: as actividades e as passividades.

As actividades representam todo o aspeto criador da vida humana:

São todas as iniciativas e produções do homem no seu domínio técnico, artístico, cultural… Isso pode ir desde uma obra manual até uma expressão poética, passando pela relação pessoal, a solidariedade material ou moral, etc.

O homem, ao entrega-se a estas actividades, não se desvia de Deus: torna-se, pelo contrário, a mão de Deus que continua a modelar o mundo e a dar-lhe forma.

Aos olhos de Teilhard, nós só podemos penetrar o mistério de Deus pelos caminhos dos empenhamentos. «Deus, no que tem de mais vívido e de mais incarnado, não está fora de nós, fora da esfera tangível; mas espera-nos a cada instante na acção, na obra do momento. Ele está, de algum modo, na ponta da minha caneta, da minha picareta, do meu pincel, da minha agulha, do meu coração, do meu pensamento» (Le Milieu Divin, tomo IV, Obras Completas, ed. Seuil, pág. 54).

Os diversos elementos do universo (em particular o que chamamos «a carne») constituem o caminho que Deus escolheu para se fazer homem em Jesus Cristo. São também o caminho que o homem toma para ir a Deus.

O cristão está confortável nesta perspectiva. Ele sabe, aliás, que pela sua actividade física, moral, intelectual toma conta da criação para a unir ao corpo de Cristo e, desse modo, se abrir a Deus. As nossas actividades podem, assim, unir-nos a Deus como sua fonte e termo. «Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus», diz-nos S. Paulo (1Cor 3/22-23).

As passividades da nossa vida são constituídas pelos obstáculos que resistem às nossas iniciativas, contrariam os nossos projetos ou esterilizam os nossos esforços.

Isto pode ir da doença à morte, passando pelas incompreensões, as divisões internas, a violência, as invejas, as catástrofes.

Estas passividades formam uma rede de constrangimentos biológicos, morais ou sociológicos, na qual a nossa vida se encontra inserida: elas podem, como as actividades, tornar-se um caminho de encontro com Deus. Para o explicar, Teilhard distingue duas categorias de passividades cuja fecundidade é certa.

– As passividades de crescimento são obstáculos ou resistências que estimulam o homem e o convidam a se ultrapassar. É assim que uma montanha pode contrariar um curso rectilíneo: é um obstáculo, mas um obstáculo que pode ser vencido. O que surge como uma barreira torna-se num convite à escalada. A montanha ou os oceanos podem ser considerados espaços intransponíveis, mas são eles que fizeram nascer o alpinismo, a natação ou a navegação.

Há passividades que favorecem o crescimento. Acontece que Deus estimula os homens por entreposta resistência. Os constrangimentos do mundo podem tornar-se abraços de Deus. Tomando um exemplo bíblico, é no combate com um adversário enigmático que Jacob encontra Deus. O seu ferimento na anca é a brecha pela qual se dá o encontro com Javé (Genesis 23/26-31).

– As passividades de diminuição privam-nos progressivamente das nossas faculdades essenciais até as aniquilar na morte, pelo menos aparentemente. A morte e as degradações físicas que a rodeiam fazem parte delas. Mas, o mais extraordinário, é que os vazios criados pelas passividades de diminuição preenchem-se, ou podem preencher-se, da vida de Deus. Deus, escreve Teilhard, deve, de alguma maneira, afim de penetrar definitivamente em nós, escavar-nos, esvaziar-nos, criar aí um lugar para si (O Meio Divino).

Esta esperança (que é certeza para os cristãos) não suprime habitualmente o sofrimento do corpo nem as angústias do espírito, mas engendra uma energia espiritual incomensurável e, sobretudo, abre a porta do nosso coração àquele que foi o primeiro a dar a vida e que deseja acompanhar-nos na oferenda da nossa.

Um texto de Teilhard de Chardin

Cristo no coração da Evolução
Impregnámo-nos profundamente destas perspectivas: o progresso do Universo e, especialmente, o do Universo humano, não é uma concorrência feita a Deus, nem um desperdício vão das energias que lhe devemos. Quanto mais o Homem for grande, tanto mais a Humanidade será unida, consciente e senhora da sua força; quanto mais também a Criação for bela, tanto mais a adoração será perfeita, tanto mais o Cristo encontrará, para extensões místicas, um Corpo digno de ressurreição. Não poderia haver dois cumes no Mundo, como não pode haver dois centros numa circunferência. O Astro que o Mundo espera, sem saber ainda pronunciar o seu nome, sem apreciar exactamente a sua verdadeira transcendência, sem poder mesmo distinguir os mais espirituais, os mais divinos dos seus raios, é forçosamente o mesmo Cristo que esperamos. Para desejar a Parusia, não temos senão que deixar pulsar em nós, Cristianizando-o, o próprio coração da Terra.

Porquê, então, homens de pouca fé, temer ou desdenhar os progressos do Mundo? Porquê multiplicar imprudentemente as profecias e as proibições: “Não avanceis… não tenteis… tudo é conhecido: a Terra está vazia e velha: não há mais nada a encontrar…”?

Tudo tentar para Cristo! Tudo esperar pelo Cristo! Eis aí, bem ao contrário, a verdadeira atitude cristã. Divinizar não é destruir, mas sobrecriar. Não saberemos nunca tudo quanto a Incarnação espera ainda das possibilidades do Mundo. Jamais esperaremos o bastante da unidade humana crescente.

Levanta a cabeça, Jerusalém. Olha a multidão imensa daqueles que constroem e daqueles que procuram. ¿Nos laboratórios, nos estúdios, nas fábricas, no enorme cadinho social, tu os vês, todos esses homens que labutam? Pois bem, tudo o que por eles fermenta de arte, de ciência, de pensamento, tudo isso é para ti. – Vamos, abre os teus braços, o teu coração, e acolhe, como o teu Senhor Jesus, a onda, a inundação da seiva humana. (O Meio Divino)

[Ver em arquivo Newsletter os capítulos já publicados]

| PENSAMENTO DE TEILHARD

“Adorar, outrora, era preferir Deus às coisas, referindo-as a Ele e sacrificando-lhas. Adorar, agora, significa votar-se de corpo e alma ao acto criador, associando-se a ele para perfazer o Mundo mediante o esforço e a pesquisa” (“A minha Fé”, Cristologia e Evolução, Tomo 10, OC, pág. 106, ed. Notícias).

“Deus não quis isoladamente (e não poderia ter fabricado como peças separadas) o sol, a terra, as plantas, o Homem. Ele quis o seu Cristo e, para ter o seu Cristo, teve de criar o mundo espiritual, os Homens em particular, sobre os quais germinaria Cristo; e, para ter o Homem, teve de lançar o enorme movimento da vida orgânica (que não é, portanto, um luxo, mas um órgão essencial do Mundo), e, a fim de que esta nascesse, foi necessária toda a agitação cósmica.” (“O Meu Universo”, Ciência e Cristo, Tomo 9, OC, pág. 80, ed. Vozes, Petrópolis, Brasil)

Leiam-nos e procurem
FAZER DOS VOSSOS AMIGOS, AMIGOS DE TEILHARD DE CHARDIN
(VER AQUI)

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