Um Pólo unificador chamado Cristo-Ómega
Por ocasião do 70º aniversário da sua morte, no Domingo de Páscoa, 10 de abril de 1955, em Nova Iorque, várias publicações e eventos celebram a figura do teólogo jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, “este sacerdote muitas vezes incompreendido”, como disse o Papa Francisco a 3 de setembro de 2023, na sua homilia nas “Arenas da Estepe” em Oulan-Bator, na Mongólia.
Em primeiro lugar, merece ser recodado o polémico e pungente Monitum, publicado em 30 de junho de 1962 pelo Santo Ofício da época e dirigido em particular aos responsáveis pela formação intelectual dos candidatos ao sacerdócio: “Algumas obras, mesmo póstumas, do Padre Pierre Teilhard de Chardin estão a difundir-se e a obter um sucesso considerável. Sem julgar o que diz respeito às ciências positivas, é suficientemente claro que, em matéria filosófica e teológica, estas obras estão repletas de ambiguidades, ou melhor, de erros graves, que minam a doutrina católica.”
Juntamente com a breve declaração, foi publicado no mesmo dia um artigo, não assinado, em L’Osservatore Romano, sob o título Pierre Teilhard de Chardin e as suas reflexões no plano filosófico e religioso. Este texto expunha os fundamentos da condenação, sublinhando que, ao contrário dos seus trabalhos científicos — cujo conteúdo não era posto em causa —, os escritos filosóficos e teológicos de Teilhard continham ambiguidades consideradas perigosas, bem como graves erros doutrinários.
Apesar da severidade dos juízos expressos sobre o método e o pensamento do jesuíta, o artigo procurou preservar a memória da pessoa: “Desejamos reconhecer que Teilhard, como indivíduo, levou uma intensa vida espiritual. Obviamente, não é nossa intenção criticar o homem, mas sim o seu método e o seu pensamento.” Na realidade, o Monitum não impediu o reconhecimento dos méritos inquestionáveis do seu contributo, nem a realização de estudos críticos sérios e imparciais sobre o seu pensamento.
O primeiro a reconhecer publicamente Teilhard como um pensador brilhante e estimulante foi Paulo VI que, a 24 de fevereiro de 1966, durante uma visita a um estabelecimento farmacêutico romano, assim se exprimiu, segundo a reportagem publicada em L’Osservatore Romano de 26 de fevereiro: “Um famoso cientista afirmou: quanto mais estudo a matéria, mais descubro o espírito. (…) E o Santo Padre cita Teilhard de Chardin, que deu uma interpretação do universo e, no meio de tantas fantasias e aproximações, soube discernir no âmago das coisas um princípio inteligente que deve ser chamado Deus.
Alguns anos mais tarde, em 1968, o teólogo Joseph Ratzinger, na sua Introdução ao Cristianismo, discutindo a relação entre Jesus e toda a humanidade, escreveu: “Devemos reconhecer o grande mérito de Teilhard de Chardin por ter repensado estas ligações no contexto do mundo moderno, reajustando-as de uma nova forma e, apesar de uma certa tendência não totalmente isenta de suspeitas de simpatia pelo biologismo, compreendendo-as correctamente e, em qualquer caso, tornando-as novamente acessíveis a nós.” Para Ratzinger, na sua essência, a intuição de Teilhard é valiosa na medida em que percebe em Cristo-Ómega o ponto de vista unificador e escatológico da humanidade.
Paulo VI, de novo, na Solenidade da Epifania, em 1975, declarou: “Citamos um autor iniciado neste diálogo entre o homem moderno e o mundo explorado que o rodeia; escreve: “O enriquecimento e a inquietação do pensamento religioso no nosso tempo devem-se, sem dúvida, à revelação que está a ocorrer, à nossa volta e dentro de nós, da grandeza e da unidade do Mundo. À nossa volta, as Ciências da Realidade estendem incomensuravelmente os abismos do tempo e do espaço; e revelam constantemente novas ligações entre os elementos do Universo.
De salientar também a carta enviada em 1981, em nome de João Paulo II, pelo Cardeal Agostino Casaroli, então Secretário de Estado, a Paul Poupard, Reitor do Instituto Católico de Paris, por ocasião do centenário do nascimento de Teilhard. Esta carta manifestava apreço pela tentativa do pensador de conciliar a fé e a razão, sem excluir “o estudo crítico e sereno, tanto no plano científico como no filosófico e teológico, de uma obra fora do comum”.
Também Bento XVI, celebrando as Vésperas na Catedral de Aosta a 24 de julho de 2009, se referiu a Teilhard em relação à função sacerdotal, que – afirmou o Pontífice – “consiste em consagrar o mundo para que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia”. E esta, acrescentou, é precisamente a “grande visão” de Teilhard: “No final, teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se tornará hóstia viva”.»
Finalmente, após uma referência inicial na encíclica Laudato si’, de 2015 – onde se lê no n. 83: “O ápice da viagem do universo encontra-se na plenitude de Deus, alcançada através de Cristo ressuscitado, eixo da maturação universal”, com esta nota a esclarecer: “O contributo do Padre Teilhard de Chardin inscreve-se nesta perspetiva” — o Papa Francisco volta a citar o teólogo jesuíta durante a sua viagem à Mongólia: “A Missa é ação de graças, ‘Eucaristia’”, declarou o Pontífice, há dois anos. Celebrá-la nesta terra fez-me lembrar a oração do padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, dirigida a Deus há exactamente cem anos, no deserto de Ordos, não muito longe daqui.” O Padre Teilhard estava empenhado em pesquisas geológicas. Desejava ardentemente celebrar a Missa, mas não tinha consigo nem pão nem vinho. “Este sacerdote, muitas vezes incompreendido”, prosseguiu o Papa, “tinha a intuição de que “a Eucaristia é sempre celebrada, em certo sentido, no altar do mundo” e que é “o centro vital do universo, o lar transbordante de amor e de vida inesgotáveis.
(Osservatore Romano, 27 de março de 2025)
