NEWSLETTER 11 – NOVEMBRO 2024

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Vergílio Ferreira e Teilhard de Chardin
Em Abril de 1966, publicava-se o nº 37 da revista “O TEMPO E O MODO”, que dedicava a sua primeira parte a Teilhard de Chardin. Aí lemos artigos de Jean-Pierre Demoulin, ex-presidente da Société Teilhard de Chardin, de Bruxelas, de Jean-Marie Domenach, de António Alçada Baptista e de Vergílio Ferreira. Entretanto, Vergílio Ferreira morreu, em 1986, nas vésperas de completar 80 anos, deixando-nos um legado imenso como escritor e pensador, que o coloca ao nível de um dos vultos maiores da cultura portuguesa do século XX.

Quem tivesse tido o privilégio de privar com Vergílio Ferreira nas últimas décadas da sua vida e não conhecesse aquele seu artigo, intitulado «Teilhard de Chardin e o humanismo contemporâneo», não suspeitaria que ele pudesse ter alimentado tão vivo interesse por aquele místico, sábio e filósofo, chegando a designá-lo ali com expressões surpreendentes como “o famoso Padre” ou “o grande Padre” ou mesmo “nosso irmão”.
Vergílio Ferreira confessava-se agnóstico. Os primeiros estudos, fê-los no seminário do Fundão, que abandonou depois da adolescência para ir estudar Letras em Coimbra. Conhecia, pois, o lado repressivo e enviesado que a Igreja projectava nos ambientes do seu ensino intramuros, naqueles anos 20 do século passado, o que certamente contribuiu para o seu carácter crítico sobre a fé e que estaria também na base das suas posições agnósticas.
O seu romance «A manhã submersa» reflete bem esta sua postura crítica ao dar-nos a visão, quase cruel, mas magistralmente desenhada, do que era, naquela época, o drama das famílias de origens modestas das nossas províncias quando aspiravam dar aos filhos alguma escolaridade e tinham, como única solução, recorrer, para o efeito, aos seminários das suas dioceses. Em muitos casos, era a própria família que encorajava o jovem a seguir a carreira eclesiástica, com todos os benefícios materiais que daí resultavam para o próprio e, de algum modo, também para os pais, mais empobrecidos à medida que iam envelhecendo.
A figura central deste romance, o pequeno António Borralho, protegido de D. Estefânia, a beata rica da terra, que financiou o seu ingresso no seminário, cedo descobriu, com pavor, as sombras dum futuro que o afastaria duma vida saudável, no mundo das pessoas como ele. Quando um dia revelou à mãe, paupérrima viúva sem recursos, que queria sair do seminário porque não queria ser padre, esta vituperou-o de ingrato para com o destino, que lhe era “generosamente” proporcionado pela D. Estefânia, e de insensível à miséria em que continuariam a viver.
O fundo autobiográfico que, de algum modo, perpassa a obra, não comporta o desfecho do drama do António Borralho, aliás testemunhado pelo próprio Vergílio no caso dum jovem da sua aldeia, com quem privava, e que lhe serviu de inspiração. Na regra da admissão de candidatos ao sacerdócio imperava a norma de o jovem ter de ser, física e mentalmente, perfeito, sendo excluídos os deficientes ou aleijados. O desespero do António, impotente perante as pressões da mãe e da sua protectora, levou-o a aproveitar-se desta norma e a decidir deixar estoirar-lhe na mão direita o cartucho dum foguete de festa, que lhe levou uns tantos dedos. No final, a mãe, visitando-o no hospital, disse-lhe, com amargura: «ó filho, não era preciso tanto!».
Surpreendentemente, o artigo que Vergílio Ferreira publicou em “O TEMPO E O MODO”, como acima se refere, não se podendo, de forma alguma, considerar uma prova de reconciliação com a fé, sobretudo, no seu caso, a veiculada pela Igreja católica, revela-nos, contudo, uma simpatia particular pelas ideias, à época, inovadoras de Teilhard de Chardin, no tocante a uma visão que aproxima o mundo da descoberta científica a uma forma inteiramente inédita de posicionar a pessoa de Cristo em relação ao universo e à humanidade. As suas análises sobre o alcance filosófico que o pensamento teilhardiano lhe revela constituem uma das mais profundas e ricas reflexões nesta matéria, jamais produzidas em Portugal. Por esse motivo, convidamos aqui à leitura deste importante artigo.

 

SUMÁRIO

 

| EFEMÉRIDE

O MEU UNIVERSO
No dia 25 de março passado fez 100 anos que Teilhard escreveu o ensaio com o título de «O meu Universo». O objectivo deste escrito foi expor a sua maneira pessoal de compreender o Mundo a que ele foi progressivamente conduzido pelo inevitável desenvolvimento da sua condição humana e cristã. A sua intuição quanto à existência de uma combinação de determinismo e espontaneidade na forma como o mundo se ia revelando, originou nele uma paz interior, pois encontrou aí o equilíbrio duma concepção fisicista e unitária do Mundo e de Cristo. Sentiu que essa intuição era guiada por Alguém maior do que ele e partilhada por outros espíritos, dentro e fora do Cristianismo. Esta constatação despertou nele o sentido de Missão, compreendendo a urgência da transmissão da sua visão aos que dele necessitassem, à semelhança da ajuda que doutros recebeu para as suas reflexões e experiências, esperando, ao mesmo tempo, receber deles em troca o seu contributo para tornar as suas próprias ideias mais precisas. Na apologética que, a partir daí, desenvolve, procura mostrar a coerência de como se encadeiam, se ordenam e se iluminam mutuamente os inúmeros elementos do Mundo físico, moral, social, religioso e como é possível abordar a desordem das Coisas e ver de repente como tudo se transmuta em vibrações, riqueza de matizes, interminável perfeição na unidade.
O ensaio divide-se em 4 capítulos: A União Criadora, O Cristo Universal, Moral e Mística e A Evolução do Mundo. O conteúdo de cada um destes capítulos pode esquematizar-se como segue:

I Filosofia – A União Criadora
A. Princípios fundamentais:

1) o primado da consciência
a. é melhor ser do que não ser; é melhor ser consciente do que não-consciente
b. é melhor ser mais do que ser menos; é melhor ser mais consciente do que menos consciente
A grande ruptura entre homens bons e maus, eleitos e reprovados, passa pela opção entre valor e não-valor absoluto de maior consciência

2) fé na vida – certeza inabalável de que o Universo não fracassará e que
a. tem uma finalidade
b. não pode enganar-se no seu rumo nem se deter no seu caminho;
esta crença assenta em:
• se houve no Universo a emersão do pensamento foi por obra dum poder soberano que o dirige
• crença pessoal na coerência observada
• amor a tudo que o cerca

3) fé no absoluto – como não pode admitir que o Mundo seja mal construído, tem a certeza de que a vida se dirige rumo ao estabelecimento de uma Terra nova e eterna, i. e., duma perfeição absoluta

4) prioridade do todo – tal como a Vida no seu conjunto (e não nos seus elementos) é infalível, tal como é no esperado crescimento do Mundo que se deve destilar a seiva de cada mónada, assim o Absoluto para que nos elevamos só poderia ter a face do Todo – Todo depurado, sublimado, «conscientizado». Nada é compreensível no Mundo a não ser a partir do Todo, no Todo.

B. União Criadora

Sistema solidamente ligado, conciliando as concepções científicas da Evolução com a sua tendência em procurar o Divino, sem ruptura com o Mundo físico e através da Matéria, em união com ela.
Assim, nas relações espírito/matéria:
• quanto mais elevado o psiquismo nos seres vivos, mais o vemos ligado a um organismo complexo
• quanto mais espiritual a alma, tanto mais frágil e múltiplo o seu corpo
• ser mais é ser melhor unido com um maior número de elementos
• o Uno aparece após o Múltiplo, no domínio do Múltiplo, pois a sua acção essencial é unir.
A União Criadora não funde em si os termos que agrupa, conserva-os, leva-os a termo. Cada alma superior diferencia melhor os elementos que une.
Passa-se da multiplicidade absoluta à Unidade pela União Criadora, ao Centro primeiro supremo de convergência que é Ómega, e isto por evolução, que passa pela união das almas.
Corolários da União Criadora:
1) toda a consistência vem do Espírito
2) tudo se sustenta pelo Alto
3) não há oposição Espírito/Matéria

II O Cristo Universal

As mónadas humanas são os elementos de uma síntese orgânica superior, destinadas a formar o corpo de uma alma mais espiritual. O Cristianismo assume o seu pleno valor em função das ideias da União Criadora, que é uma extensão filosófica da fé na Encarnação. Assim: Ómega é o termo superior cósmico revelado pela União Criadora.
Portanto:
A. Cristo revelado é Ómega
B. Cristo Ómega apresenta-se como tangível e como inevitável em todas as coisas
C. Para ser constituído Ómega, Cristo teve, pelos labores da Encarnação, de conquistar e animar o Universo
Encarnação, Redenção, Cruz, Eucaristia – expressão do Cristo Universal

III Moral e Mística

Para o cristão, dedicado à unificação do Mundo em Cristo, o trabalho da vida interior, moral e mística, reduz-se a dois momentos essenciais complementares:
A. Conquista do Mundo – desenvolvimento
B. Desapego do Mundo – diminuição
ambos representando duas formas conjugadas de uma mesma tendência: alcançar Deus através do Mundo
C. O Meio Místico – A Comunhão
Façamos o que fizermos, é o próprio Cristo que operamos, soframos o que sofrermos, é o próprio Cristo que opera em nós

IV A Evolução do Mundo

A. Passado
B. Futuro
«Deus não quis isoladamente o sol, a terra, as plantas, o Homem, Ele quis o seu Cristo, e, para ter o seu Cristo, teve de criar o mundo espiritual, os Homens, em particular, sobre os quais germinaria o Cristo e, para ter o Homem, Ele teve de lançar o enorme movimento da vida orgânica, e, a fim de que esta nascesse, foi necessária toda a agitação cósmica.»
«Percebendo o absurdo que constituiria em prosseguir uma obra humana sem futuro, a fracção ascendente da Humanidade há-de-se absorver sempre mais na busca e na expectativa de um Deus.»
«Apertados uns contra os outros pelo crescimento do seu número e pela multiplicação dos seus vínculos, os Homens de futuro não formarão mais que uma só consciência. Então, sobre uma Criação levada ao paroxismo das suas aptidões para a União, há-de exercer-se a Parusia. Desta forma, achar-se-á constituído o complexo orgânico Deus e Mundo – o Pleroma.»

A leitura completa deste ensaio pode ser feita AQUI.

| AGENDA

18º RETIRO ANUAL TEILHARD DE CHARDIN
No fim de semana de 23-25 de maio de 2025, realiza-se o nosso 18º Retiro anual. As inscrições abrem no dia 11 de janeiro, mas, entretanto, podem ser feitas provisoriamente para o email teilhardportugal@gmail.com . Terá lugar na Casa de Exercícios de Santo Inácio (Rodízio, Praia Grande, Colares) sob orientação do Pe. Vasco Pinto de Magalhães sj. O tema escolhido foi «O Cristo Cósmico». Para mais detalhes, ver AQUI.

| VIDA DA ASSOCIAÇÃO 

SEMINÁRIO 2024/2025
Desde o dia 20 setembro que está a funcionar este Seminário, em que, por zoom, nos encontramos mensalmente para ler e comentar textos de Teilhard de Chardin. Ocorreram já duas sessões, estando a próxima agendada para o dia 25 de novembro. As gravações respectivas podem ser visionadas AQUI Quem estiver interessado em participar e receber informações das sessões pode fazer a sua inscrição (grátis) para o email teilhardportugal@gmail.com

CONFERÊNCIA
No dia 3 de outubro de 2024, a psicoterapeuta Gestalt e Sistémico-constructivista Drª. Paz Enríquez Fernández, ex-colaboradora da Unidad del Dolor del Hospital Dr Sagaz, em Jaén, Espanha, proferiu (por zoom), para os amigos de Teilhard em Portugal, uma conferência subordinada ao tema “Contributos da Psicologia profunda de Carl G. Jung no pensamento de Teilhard de Chardin”. O texto desta conferência pode ser lido AQUI, e a respectiva gravação visionada no link https://youtu.be/usa6rkmOUts

BIBLIOTECA TEILHARD ON-LINE
No separador do nosso site Ler Teilhard – Ler aqui (português) – Livros, encontra-se um conjunto de obras, de e sobre Teilhard, que podem ser ali lidas na íntegra. Ao darmos seguimento a esta iniciativa, estamos certos de proporcionar um valioso serviço aos cibernautas que nos visitam e de enriquecer, assim, ainda mais, os nossos conteúdos. Para facilitar o acesso a este acervo, logo na primeira página do site estamos a colocar as capas e os títulos, à medida que o vamos alargando com novas obras, bastando um clique sobre cada uma delas para a abrir de imediato e, assim, permitir directamente a sua leitura.

 

| A VIDA DE TEILHARD DE CHARDIN, EM BD

Pierre Teilhard de Chardin, Padre jesuíta, homem de ciência e filósofo, nasce no castelo da família, em Sarcenat, Clermont-Ferrand (Auvergne, França) a 1 de maio de1881 e morre em Nova Iorque, no dia 10 de abril de 1955. Adaptada da brochura «Pierre Teilhard de Chardin» [Croyants de Tous Pays, Éditions Fleurus, UNIVERSMEDIA, Paris, para FONDATION TEILHARD DE CHARDIN], oferecemos-vos (sobretudo a pensar nos mais novos), uma sugestiva biografia de Teilhard de Chardin, apresentada em BD, de que iremos inserindo sucessivamente as diversas pranchas.
Acrescentamos hoje a 9ª prancha.

Eis aqui todas as NOVE pranchas já publicadas. 

PRANCHA 9

 

| PUBLICAÇÕES

Primeiros passos com Teilhard de Chardin, Pe. André Picard
O nome do Padre Teilhard de Chardin é cada vez mais conhecido. Mas o conteúdo do seu percurso e das suas descobertas permanece ainda muitas vezes um tesouro escondido. Contudo, o pensamento e a espiritualidade do Padre Teilhard, em concordância com as mutações dos tempos modernos, poderia esclarecer muitos dos nossos contemporâneos nas suas interrogações sobre o Homem e a sua relação com a ciência e a fé. Este livrinho apresenta-se como uma primeira iniciação à reflexão e às convicções do sábio jesuíta que foi o Padre Teilhard de Chardin. O autor é o Pe. André Picard, padre diocesano de Bayeux et Lisieux. [Ed. Saint-Léger, França, 2013]

Considerando esta obra, editada em França em 2013, um excelente meio de fazer uma introdução ao pensamento de Teilhard de Chardin, decidimos realizar a sua tradução e passar a transcrever, neste espaço, sucessivamente os seus diversos capítulos e partes. Assim, após termos apresentado na Newsletter 9 a Introdução e o Prefácio, e, na Newsletter 10, o capítulo 1, intitulado “Teilhard e o seu tempo”, incluímos agora aqui o capítulo 2, intitulado “O Fenómeno Humano”:

2 O Fenómeno Humano
Sem esquecer que Teilhard de Chardin é um crente (e mesmo padre e religioso), é interessante seguir os caminhos que ele encetou, partindo das suas observações científicas.
As investigações do sábio Teilhard de Chardin são, desde logo, as de um geólogo que percorreu no terreno as diferentes etapas da história do universo. Baseado nessas observações, chegou a um certo número de convicções que partilhou em diversas obras, mas, em particular, em O Fenómeno Humano, definitivamente escrito entre 1938 e 1940.
Estas investigações, que cobrem um período de 14 mil milhões de anos, foram feitas graças a métodos científicos comprovados, o que lhe confere uma razoável credibilidade.
Duma forma muito rápida, em três parágrafos, tentemos pôr em relevo os principais aspectos da visão do mundo segundo Teilhard.

O fenómeno evolução
A convicção fundamental de Teilhard, que é a chave necessária para compreender a sua visão do mundo, é a de que o universo é fruto de uma evolução constante. Durante muito tempo, acreditou-se que o universo era um conjunto fixo e estático, que continha, desde as suas origens, as formas de vida que lhe conhecemos hoje. A grande convicção de Teilhard, enraizada no seu trabalho de geólogo, é de que o mundo se construiu por etapas sucessivas e progressivas. «Esta descoberta fundamental de que todos os corpos derivam, por arranjo, dum só tipo inicial corpuscular é o clarão que ilumina, a nossos olhos, a história do Universo» (O Fenómeno Humano, p.43 – ed. Seuil).
Este dilatar do universo através dos tempos produziu-se com uma lentidão imensa e pelo franquear de limiares que os estudos geológicos permitem detectar.
Antes de mais, convém notar o fenómeno da Cosmogénese, ou seja, a aparição de massas distintas a que chamamos astros, estrelas ou planetas, cuja origem a partir duma energia inicial permanece misteriosa.
Em seguida, e ao fim de alguns milhares de milhões de anos, uma nova realidade se manifestou: a da vida, que germina da matéria, aparentemente inerte. É o período da Biogénese (emergência da vida), cuja explicação não releva directamente da ciência, mas que parece difícil atribuir pura e simplesmente ao acaso.
Esta vida manifesta-se sob aspectos extremamente variados, desde a célula solitária até ao animal gigantesco, passando por plantas e árvores de toda a espécie. Ela caracteriza-se pela capacidade de se reproduzir e de se espalhar com uma incrível força de expansão.
Ao final dum caminhar extremamente longo, a energia vital vence um novo limiar e dá progressivamente nascença a uma espantosa forma de vida: a do homem. Para assinalar este acontecimento, é necessário recuar cerca de dois milhões de anos antes da nossa era. É o que se chama a antropogénese (a emergência do homem). Mas, com o tempo, esta personagem, recentemente aparecida, vai evoluir para uma nova condição: este será o tempo da Noogénese (a emergência do pensamento) que vai permitir o nascimento de um tecido social de trocas e comunicações. Estamos a cerca de 200.000 anos antes de Jesus Cristo, quando aparece o homem do saber (Homo Sapiens), capaz de reflectir, de inventar, de se orientar sem se deixar guiar unicamente pelas suas reacções instintivas. «O Homem que vislumbramos na terra do final do quaternário é verdadeiramente o homem moderno… Com o Homo Sapiens, é um pensamento definitivamente liberto que explode, ao calor ainda das paredes da caverna. Com eles, os recém-chegados trazem a arte, uma arte naturalista ainda, mas prodigiosamente consumada». (O Fenómeno Humano, pág. 222 ss, ed. Seuil)
Através deste longo processo evolutivo, é fácil ver que o mundo está em transformação desde as origens, que está constantemente em processo de construção e que, provavelmente, está longe ainda de se completar.

O homem de hoje deve antever e preparar-se para transpor novas etapas que o conduzirão a horizontes difíceis de descortinar, mas a que Teilhard chama naturalmente «o ultra-humano». Tanto no plano individual como no das suas relações com o planeta, o homem moderno é um Ser em evolução. Ele erraria, sem dúvida, se quisesse fixar-se e imobilizar-se numa situação definitiva: a vida impulsiona-o para a frente.
A este cumprimento de si próprio, para o qual tende o homem de todas as épocas, poderemos chamar, com Teilhard de Chardin, o «ponto ómega». Este «ponto ómega» é o termo que consuma a lenta ascensão do homem na direcção do seu perfeito desabrochar pessoal e social, ainda que seja capaz de travar essa ascensão ou de a comprometer, por recusas sempre possíveis.

Os grandes princípios da evolução
As observações científicas de Teilhard de Chardin sobre a evolução permitem-nos distinguir algumas constantes que podem ser reconhecidas como expressão das leis fundamentais, sempre activas. Abordamos apenas três.

A passagem do múltiplo à unidade
Desde as origens, o mundo constrói-se e progride graças à união que se realiza dos elementos separados e dispersos. De átomos em moléculas, de moléculas em células, de células em tecidos organizad0s, a evolução progride pela união das diferenças e é deste modo que se dá a passagem do mineral ao vegetal e depois ao animal (compreendendo o homem).
O encontro e conjugação de elementos diferentes fazem surgir, a prazo mais ou menos longo, uma realidade nova.
A união do hidrogénio e do oxigénio, por exemplo, dá origem a um novo elemento a que chamamos água.
Tudo o que se opõe à realização destas «uniões criativas» marca um regresso à dispersão e à aniquilação. É a união destas diferenças que permite transformação e progresso do universo.

A lei da complexidade-consciência
A passagem do múltiplo à unidade resulta, de cada vez, em novos seres cuja estrutura e energia são cada vez mais complexas e cada vez mais subtis e autónomas.
A complexidade-consciência é um processo de desenvolvimento de partículas iniciais que se reúnem para formar novos organismos cada vez mais complexos, mas também cada vez mais conscientes da sua própria evolução.
Este processo culmina no homem e no cérebro humano, que contém dezenas de milhares de neurónios, espantosamente articulados entre si e que é capaz de observar e mesmo de orientar o seu próprio funcionamento: chegamos ao nível da reflexão e do pensamento.
Este processo não diz apenas respeito ao homem na sua individualidade, atinge também a sociedade propriamente dita. Pouco a pouco, a sociedade humana, complexificando-se nas suas estruturas, descobre os utensílios que lhe permitem adquirir uma consciência comum face às questões com que se defronta.
Pode, pois, dizer-se que a evolução nos encaminha normalmente para uma forma de vida consciente e responsável que liberta o homem, em particular, da submissão aos automatismos cegos.

A fecundidade da dupla matéria-espírito
Matéria e espírito não são duas realidades oponíveis e sem outra relação que não seja a da justaposição.
Matéria e espírito são a sede duma energia primordial que cria entre uma e outra um laço de interdependência e de fecundidade mútuas.
Só pode existir evolução porque no âmago da matéria («a santa matéria», dirá Teilhard) se encontra já uma forma incoativa, um élan dinâmico «inteligente» que aponta numa direcção – «a matéria original é qualquer coisa mais do que um fervilhar particular tão maravilhosamente analisado pela física moderna». (O Fenómeno Humano, pág. 53, ed. Seuil)
É esta energia espiritual que constitui o «de dentro» da matéria e que, sem separar dela, evolui progressivamente até ao pensamento e à consciência, características do homem.
A matéria é a «matriz do espírito» (como diz Teilhard), mas, ao mesmo tempo, o espírito fornece à matéria o sentido e a dinâmica da sua evolução. Matéria e espírito vão juntas: dissociá-las ou, ainda mais, opô-las, é introduzir na evolução um germe de disfuncionamento e de desequilíbrio.
Ao acabar este segundo capítulo, e aproximando-nos das conclusões de Teilhard, constatamos que a vida, o homem, o pensamento, apareceram a diversas etapas duma evolução que não terminou.
O mundo não está terminado: ele continua a construir-se e a orientar-se em direcção a um futuro cujos traços nem a própria ciência consegue desenhar com precisão. Mas a humanidade está em rota e, para se consumar, ela tem de permanecer aberta a novas mutações que supõem, hoje como ontem, passagens, roturas, fracassos, renúncias, sofrimentos. E, no entanto, é uma fonte de esperança; a corrente vital que anima a evolução é suficientemente forte para conseguir vencer as provações e as catástrofes. Tal como um curso de água impetuoso que salta as barragens, assim o élan vital é capaz de ultrapassar os obstáculos de que a própria humanidade é, por vezes, responsável.
Um texto de Teilhard de Chardin

A união, fonte de crescimento

De que processo profundo entrevemos nós a existência?
Olhemos de perto utilizando os dados recentemente obtidos pelo engenho associado duma legião de investigadores. Há provavelmente – começamos a entrevê-lo – dezenas de milhões de átomos agrupados numa só molécula de vírus. Haverá, certamente, dezenas de milhares de moléculas harmonizadas numa única célula. Há milhões de células num só cérebro. Há milhões de cérebros num só formigueiro.
Que significa este atomismo senão que o estofo cósmico, dominado pelas foças de desagregação que, num sentido descendente, o vão lentamente dissolvendo até aos átomos, nos aparece agora como submetido, pelo seu outro extremo, a uma extraordinária força de agregação – força cujo resultado é o de fazer aparecer, sobre uma matéria cada vez mais poderosamente sintetizada, sempre mais energia espiritualizada? Nisto, note-se bem, nenhuma metafísica.
Não pretendo definir o que é o Espírito nem o que é a Matéria. Apenas digo, sem deixar o terreno da física, que a maior das descobertas feitas pelo nosso século é provavelmente ter reconhecido que a moral do tempo se deve medir por uma agregação gradual da Matéria em conjuntos sobrepostos, cujo arranjo cada vez mais rico e melhor centrado se aureola duma franja sempre mais luminosa de liberdade e de interioridade…
Onde vem o homem colocar-se na linha deste progresso?
Aqui, a resposta é evidente. Se verdadeiramente, como eu sustento, o movimento cósmico no sentido de uma maior consciência não é uma ilusão de óptica, mas exprime a própria essência da evolução biológica, então, na curva traçada pela vida, o homem ocupa indiscutivelmente o cume; e é ele mesmo quem, pela sua aparição e a sua existência, acaba por provar a realidade e de definir o rasto da trajectória: «o ponto nos ii».

Traduzido a partir das pág.90-91 de
L’Avenir de l’Homme
(Tomo V, Obras Completas, ed. Seuil)

| PENSAMENTO DE TEILHARD

“Cristo, em primeiro lugar, experimentou em si o coração individual, aquele que é fonte da nossa tortura e alegria. Mas, nele, não existia somente um homem – existia o Homem; não apenas o Homem perfeito, o Homem ideal – mas o Homem total, o que reunia, no fundo da sua consciência, a consciência de todos os homens.” (Mon Univers, Tientsin, China, 25.03.1924, pág. 65-66, ed. Vozes, Petrópolis, Brasil, 1974).

Leiam-nos e procurem
FAZER DOS VOSSOS AMIGOS, AMIGOS DE TEILHARD DE CHARDIN 
(VER AQUI) 

 

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