É preciso que o Filho do Homem sofra muito. […] Se alguém me quiser acompanhar, tem de se esquecer de si próprio e carregar com a sua cruz todos os dias, para vir comigo. (Lucas, 9, 22 e 23)
Aceitemos o que acontece como se recebêssemos uma hóstia. Quando tivermos feito o nosso melhor, “tudo o que acontece é adorável”. É esta a última palavra da sabedoria humana e da santidade. (Teilhard de Chardin, 1944)
Tiraram-lhe a roupa e cobriram-no com uma capa vermelha. Fizeram uma coroa de espinhos entrançados e puseram-lha na cabeça. Colocaram-lhe uma cana na mão direita e ajoelhavam-se diante dele, a fazer troça, dizendo: «Viva o rei dos judeus!». Cuspiam-lhe, tiravam-lhe a cana e davam-lhe com ela na cabeça. […] Em seguida levaram-no para o crucificarem. Mateus, 27, 28-31
Porém, Jesus dizia: «Pai, perdoa-lhes, que não sabem o fazem! Lucas, 23, 34
Neste momento, sinto-me contente pelo que sofro por causa de vocês, pois o que eu sofro no meu corpo pela igreja, que é o corpo de Cristo, completa os sofrimentos que Cristo padeceu por ela. Colossenses, 1, 24
Qual é a luz radical que a paixão de Cristo, a sua morte e ressurreição, traz ao sofrimento? É que este, vivido em amor e por amor, encontra o seu sentido. É essa a chave do segredo. A Cruz é um sinal “mais” de entrega a Deus (vertical) e aos outros (horizontal). Pe. Vasco Pinto de Magalhães, “Se Deus é bom porque sofremos?”, A.O., p.61
Felizes os que choram, porque Deus os consolará! Mateus, 5, 4
A dor, o cristão sente-a como os outros. Como os outros deve esforçar-se por diminuí-la e serená-la, não apenas por orações suplicantes, mas pelos esforços de uma Ciência engenhosa e segura de si mesma. Mas, chegada a hora em que ela se impõe, ele utiliza-a. Por uma maravilhosa compensação, o mal físico, humildemente suportado, consome o mal moral. Segundo leis psicológicas definíveis, purifica a alma, estimula-a e torna-a desinteressada. Finalmente, à maneira de um sacramento, opera uma misteriosa união do devoto a Cristo sofredor. Teilhard de Chardin, “A Vida cósmica”, em “Escritos do Tempo da Guerra”, tomo 12, excerto do Cap. IV
Se a morte de Jesus é salutar, não é porque ela agrade a seu Pai, mas porque ela é o testemunho final, radical, da sua fidelidade à verdade do seu amor pelos homens. Não renunciou, antes amou até aceitar a dor e a morte. Com isso, ele transfigura a morte e o sofrimento, dando-lhe um significado novo. Mostra que, livremente aceites, elas, quando nada se pode fazer para as evitar sem se trair a si mesmo, elevam o homem em vez de o esmagar. […] [Jesus] aceitando livremente [o mal] quando não o pode evitar, indica ao crente que existe uma maneira de aceitar a dor inevitável – uma doença, um luto, a angústia, a proximidade da morte – que pode fazer crescer o coração do homem, abrindo-o a dimensões de compreensão, de amor e de compaixão insuspeitadas. Jesus não procura suprimir o trágico da existência. Assume-a plenamente. Aqui, fica-se muito longe da concepção dolorista que conduz os seus adeptos à procura voluntária da dor, da mortificação, para se aproximarem de Cristo, julgando imitá-lo. Frédéric Lenoir, “Le Christ Philosophe”, Plon, Paris, 2007
Quando sobre o meu corpo (e muito mais ainda sobre o meu espírito) começar a pesar a usura da idade; quando se abater sobre mim, do exterior, ou nascer em mim, de dentro, o mal que diminui ou arrasta; no minuto doloroso em que eu tomar de súbito consciência de que estou doente ou de que envelheço; nesse momento extremo, sobretudo, em que sentirei que escapo a mim próprio, absolutamente passivo nas mãos das grandes forças desconhecidas que me formaram; em todas essas horas sombrias, concedei-me, meu Deus, a compreensão de que sois Vós (possa a minha fé ser grande o bastante) que afastais dolorosamente as fibras do meu ser para penetrardes até à medula da minha substância, para me arrebatardes em Vós. Teilhard de Chardin, “O Meio Divino”, O.C., tomo 4
O mundo, visto à nossa escala, é um imenso tateamento, uma imensa busca, um imenso ataque: os progressos não se podem fazer senão à custa de imensos insucessos e de incontáveis feridas. Os sofrimentos, seja qual for a sua espécie, são a expressão desta condição, austera, mas nobre. […] Qual a parte mais especialmente vocacionada a sublimar, a espiritualizar, o trabalho geral da progressão e da conquista? Os contemplativos e os «orantes», sem dúvida, mas também, muito certamente, os doentes e os que sofrem. Por natureza, por compleição, os que sofrem encontram-se como que expulsos de si mesmos, levados a emigrar para fora das formas presentes da Vida. Não serão eles, desde logo e pela sua própria condição, predestinados, eleitos para o trabalho que consiste em fazer elevar o Mundo acima da fruição imediata, em vista a uma luz sempre mais elevada? […] Jesus crucificado não é nem um rejeitado nem um vencido: Ele é, pelo contrário, Aquele que carrega o peso e faz convergir sempre mais para o alto, para Deus, o progresso da marcha universal. Façamos como Ele, a fim de, em toda a nossa existência, ficarmos unidos a Ele. Teilhard de Chardin, “L’Énergie Humaine”, O.C., tomo 6, p. 61-66
Cristo não nos chama a aderir a uma doutrina, mas a entrar numa comunidade com a missão de «ir por todo o lado e levar a paz e a justiça». Isso não vai tirar o sofrimento, mas pode torná-lo fecundo, isto é, porta de felicidade. António José Pagola, “Jésus, approche historique”, Cerf, 2019
O sofrimento e o mal têm muitas vezes uma conexão, embora não se identifiquem. É difícil não os ligar. Mas, por exemplo, se dizemos “a mãe sofre as dores de parto” ou se falamos das “dores de parto do universo”, como diz São Paulo a propósito dos trabalhos de crescimento na esperança, aí os sofrimentos não são conotados com o mal, mas sim com a dor e a dificuldade. Mas são sofrimento! Esta questão desafia-nos muito, abre caminhos. […] A Criação é um trabalho de parto exigente, sofrido, porque a matéria resiste à sua espiritualização. Quando a criação, trabalho evolutivo, chega ao nível do humano, parece que mais difícil se torna, porque assume o desafio de se confrontar com a liberdade da criatura. […] Pe. Vasco Pinto de Magalhães, “Se Deus é bom porque sofremos?”, Ed. A.O., pág.21 e 37
O 20º RETIRO DA AAPTCP ESTÁ AGENDADO PARA 21, 22 E 23 DE MAIO DE 2027 (RODÍZIO)
As inscrições abrirão em janeiro de 2027
