Sentido do Mundo e sentido de Deus, segundo Teilhard de Chardin

[Teilhard Monde – 31.07.2025 (trad.)]

Entrevista com Louis Leprince-Ringuet (1901-2000) pela Rádio-Canadá, transmitida em 1982 e publicada juntamente com outras entrevistas pela Ed. Paulines, Montreal, em 1985, sob o título Pierre Teilhard de Chardin – La victoire sur le non-sens. Louis Leprince-Ringuet foi físico, historiador da ciência e ensaísta, membro da Académie Française e da Académie des Sciences.

 Após a guerra, por volta de 1948-50, foi criado um grupo chamado União Católica dos Cientistas Franceses, em França, e os meus colegas mais jovens confiaram-me a presidência. Tínhamos de examinar os problemas relacionados com a actividade científica que poderiam surgir para os cristãos: seria possível, num mundo fortemente marcado pela ciência, dominado pela tecnologia, ser um bom cristão e um bom cientista, diria eu, sem fazer batota, sem ser forçado a compartimentar a própria existência perante uma forma moderna de ateísmo actual? Teríamos de abordar todas estas questões importantes relacionadas com o florescimento da ciência, incluindo o futuro e a coexistência com a fé, e todos estes problemas que surgem entre a Igreja e o método científico que constrói a civilização contemporânea.

Foi nesta altura que tivemos a sorte de conhecer o Padre Teilhard, que aceitou fazer parte do conselho da nossa União Católica de Cientistas Franceses, ao lado de eminentes figuras científicas de várias disciplinas. Proferiu palestras que foram muito bem-sucedidas. Os auditórios estavam sempre cheios: o público, nessa época, ansiava por uma visão ampla, optimista e generosa, uma visão de futuro que não implicasse nem condenação nem exaltação irrefletida ou incondicional do mundo contemporâneo. Era um mundo ainda a sangrar — dado que foi logo após a guerra — e a reconstrução prosseguia a um ritmo acelerado nessa altura. Assim, o Padre Teilhard apareceu-nos como o sumo sacerdote desta reconciliação entre as forças materiais e as espirituais, numa bela e maravilhosa convergência.

As suas palavras confortavam os preocupados, revigoravam os tímidos; não foi apenas um bálsamo para a ferida: tomámos consciência da existência de um projeto grandioso, um projeto sublime animado pelo sopro do Evangelho, um projeto que tinha em conta todos os valores humanos que floresciam no progresso incessante da ciência e do conhecimento universal. Este era o projeto do Padre Teilhard: conciliar o que era bom no mundo moderno com o mundo religioso.

Tinha plena consciência do abismo entre a Igreja e o mundo naquela época. Em 1929, escreveu isto: “O Sentido Humano acredita no futuro magnífico do Mundo tangível; e o Evangelho parece desdenhar isso. O Sentido Humano prega o gosto e o esforço na conquista das coisas; o Cristianismo clama por indiferença e renúncia. O Sentido Humano distingue um Universo emergindo radiante do meio da luta pelo ser; o Cristianismo mantém-nos no espectáculo de uma Natureza decaída e fixa. Entre o Evangelho de certos pregadores ou teólogos” – não os coloca todos no mesmo saco – “e o Humano, existe actualmente uma discórdia íntima e evidente[1].

Foi o que disse em 1941, quando estava em Pequim: “A priori, duas forças, desde que ambas tenham um sinal positivo, são sempre capazes de crescer por combinação. Fé em Deus, Fé no Mundo: estas duas energias, ambas fontes de um magnífico impulso espiritual” — e é verdade, há um impulso espiritual também na ciência, não é apenas materialismo — “estas duas energias devem certamente ser capazes de se acoplar eficazmente num resultado de natureza ascendente.” — veja, este é o sentido figurativo e poético de Teilhard. “Mas onde podemos encontrar na prática o princípio e o ambiente que geram essa transformação desejável? Creio perceber esse princípio e esse ambiente na ideia devidamente ‘realizada’ de que está a ocorrer, dentro de nós e à nossa volta, uma contínua ascensão da consciência no Universo.” E acrescenta: “O sentido da Terra a abrir-se e a explodir para cima num sentido de Deus; e o sentido de Deus a enraizar-se e a nutrir-se para baixo no sentido da Terra.”[2]   E é este tema da ascensão progressiva da consciência do universo que é um dos mais desenvolvidos na visão de Teilhard e um dos que sempre mais preocupou o seu pensamento como evangelizador do mundo.

 

[1] Pierre Teilhard de Chardin, Le Sens humain (1929), in Les Directions de l’Avenir, Volume XI, Œuvres Complètes.

[2] Pierre Teilhard de Chardin, Réflexions sur le progrès (1941), in L’Avenir de l’Homme, Volume V. Œuvres Complètes.

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