Temas de Leitura

 

Alguns apontamentos sobre as leituras nos diversos grupos: 

 

São João de Deus 

  • Este grupo leu ensaios de Teilhard de Chardin, alternadamente retirados das suas obras «A Minha Fé» e «Ciência e Cristo». Desta última, leu o ensaio intitulado «Salvemos a Humanidade», de 1936, em que, numa visão que pode ser de todos os tempos, Teilhard convida a ter fundamentadamente esperança no futuro da humanidade, mesmo quando as aparências possam apontar em sentidos contrários, como é ocaso nos nossos dias.
  • No ensaio «Algumas reflexões sobre a conversão do Mundo», de 1936, fala-nos Teilhard de «pan-Cristismo», que ele identifica com «a extensão ao Universo dos atributos reconhecidos ao Cristo-Rei». A propósito desta afirmação, que surpreende pela ousadia, transcreve-se a seguir algumas frases colhidas num outro ensaio de Teilhard, «Nota sobre o Cristo Universal», de 1920, onde se lê (tradução): «Entendo por Cristo Universal o Cristo centro orgânico de todo o Universo – centro orgânico, isto é, aquele de que dependem fisicamente todos os desenvolvimentos do universo inteiro … não só da Terra e da humanidade, mas também de Sírio e Andrómeda, e todas as realidades de que dependemos fisicamente; … não apenas os esforços morais e religiosos, mas todo o crescimento do corpo e do espírito. Este Cristo Universal é o que os Evangelhos nos apresentam, especialmente S. Paulo e S. João. Aquele do qual viveram os grandes místicos.» A título de exemplo, eis algumas dessas passagens do N.T. que afirmam esta identificação de Cristo (e dos seus atributos) com o Universo:

    Ef. I, 10: “Esse plano consiste em levar o universo à sua realização total, reunindo todas as coisas, tanto dos céus como da terra, tendo Cristo como cabeça e chefe.”; Ef. I, 19-23: “Submeteu todas as coisas à autoridade de Cristo e fez dele chefe e cabeça da igreja. A igreja é o corpo de Cristo e ele, que enche o universo inteiro, está nela em toda a sua plenitude.”; João, I, 3-4:Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada foi criado. Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens.” 

  • Em novembro, foi lido o ensaio «O Crístico», incluído no tomo 13 das Obras Completas, O Coração da Matéria. LER ESTE TEXTO NA PÁGINA «TEXTOS TEMÁTICOS»

  • Do artigo do Pe. Martelet «Caminho Espiritual aberto por Teilhard», que está presentemente em leitura (abril 2017), retivemos a recapitulação da visão de Teilhard das actividades humanas, em contraponto com as passividades que nos moldam, tudo podendo (e devendo) contribuir para a construção do Reino de Deus em Cristo. As grandes passividades, o sofrimento e a morte, são vistas por Teilhard como etapas para o encontro final, o que é recordado neste artigo cintando as palavras de Teilhard:  «Unir-se é, em todos os casos, emigrar e morrer parcialmente naquilo que amamos. Mas se, como estamos persuadidos, esta aniquilação no Outro deve ser tanto mais completa quanto mais nos devotarmos a um maior que nós, qual não terá de ser a ruptura necessária para a nossa passagem em Deus? A Morte está encarregada de operar, até ao fundo de nós próprios, essa abertura desejada. Ela far-nos-á passar pela dissociação esperada. Ela pôr-nos-á no estado organicamente requerido para que desça sobre nós o Fogo divino. E, assim, o seu poder nefasto de decompor e de dissolver encontrar-se-á captado para a mais sublime das operações da Vida. O que, por natureza, era vazio, lacuna, regresso à pluralidade, pode tornar-se, em cada existência humana, plenitude e unidade em Deus.

Campo Grande 

  • Este grupo está a reler «O Meio Divino», que foi já a leitura do grupo em 2009.
  • A propósito de «O Meio Divino» foi comentado o seguinte texto de Teilhard:
    O Elemento Universal, finalmente, no nosso Mundo sobrenaturalizado, é Cristo, na medida em que tudo se lhe agrega e n’Ele se consuma; é a Forma viva do Verbo Incarnado, atingível e perfectível em toda a parte. […] Em toda a parte nos atrai e nos aproxima, num movimento de convergência universal para o Espírito. É apenas ele que procuramos, e é nele que nos movemos. […] Cristo cósmico, é e devem. […] Toda a função, obra, drama, do Universo – toda a economia do progresso humano, da graça, dos Sacramentos (Eucaristia), adquirem o seu significado definitivo nesta individualização do Elemento Universal, na qual consiste a Incarnação. (“Escritos dos Tempo da Guerra”, Portugália, 1969, pág. 381).
  • Na reunião do dia 09.02, na leitura de «As passividades de diminuição» («Meio Divino»), registámos que, n’ A luta com Deus contra o Mal, a mensagem de Teilhard é precisamente que, nos sofrimentos (e na morte), Deus está «do nosso lado», isto é, luta connosco para nos libertarmos de cada passividade de diminuição; mas se A nossa derrota aparente ocorre, então Deus assume-a connosco, convertendo-a em Bem (Diligentibus Deum, omnia convertuntur in bonum»: «Nós parecemo-nos a esses soldados que caem no decorrer do assalto donde sairá a Paz. Deus, portanto, não fica vencido, uma primeira vez, na nossa derrota, porque, se parecemos sucumbir individualmente, o Mundo, onde reviveremos, triunfa mediante as nossas mortes».

Rodízio 

  • Este grupo leu (em francês) a obra de aprofundamento do pensamento de Teilhard de Chardin intitulada «Teilhard de Chardin, prophète d’un Christ toujours plus grand», da autoria do teólogo jesuíta Gustave Martelet.
  • O 13º capítulo  tratou da visão teilhardiana da Pessoa e da sua metafísica. O subtítulo do capítulo é mesmo, recordemos, «Uma tentativa teilhardiana de génese do espírito». Percorremos os seus subcapítulos “A consciência de si”, “Estado de personalidade (anterior ao homem)”, “Centralidade e abertura da Pessoa”, “Consumação da Pessoa”, “Amor como energia de personalização” e, finalmente, os dois últimos que ontem lemos :  “O triplo élan da Pessoa” e “O Mal residual”. Reconhecemos todos que foi um capítulo muito denso, que merece uma releitura individual reflectida. Retenho, no entanto, do último subcapítulo, o termo “Le mal du Mal” como sendo o estado de hesitação que o Homem sofre previamente à sua decisão de aderir (ou não) ao chamamento da Consciência Suprema para que abandone as “margens” e se aventure ao largo oceano do “plus grand que nous”. Hesitação essa que pode ser inerente a um estado de insuficiente reconhecimento da nossa própria transcendência já em Alpha, impeditivo da adesão definitiva a Omegasans peur de nous y perdre”. E o meio de ultrapassar esse estado “paralisante” será, segundo o fio condutor da análise de Martelet, o reconhecimento do caminho para o “Ultra-humano”, que Teilhard propõe como abertura final em Ómega, de que tratará o capítulo 14. Apenas como “aperitivo” à leitura deste substancial capítulo 14 repito aqui a interrogação com que Martelet o abre e que como que recapitula tudo o que abordou no capítulo precedente: «Si, […] la “molécule humaine” comme conscience de soi hésite à se jeter dans les bras d’Oméga par manque de transcendance en Alpha, l’Ultra-Humain dans l’état actuel de la Noosphère, ne représente-t-il pas pour elle le niveau d’amorisation et d’unanimité qui peut et doit la conduire, irrésistiblement, à son terme? (sublinhados meus)». 
  • Do 14º capítulo (L’Ultra-Humain, pág. 179)    Do primeiro subcapítulo, La Matière et l’Esprit, destaca-se a afirmação de Teilhard «suivant son vrai sens, la Matière, au lieu de s’ultra-matérialiser, se métamorphosait au contraire irrésistiblement en Psyché» (forme préparatoire de l’Esprit, conforme comenta Martelet). Quase a completar este pensamento, no 2º subcapítulo pudemos ler em Martelet, interpretando o pensamento de Teilhard, que «la conscience animale , qui n’a pas cessé de monter dans la lignée des Primates et dans celle des Australopithéidés, a créé, sans le savoir, les conditions dans lequelles l’être humain a pu apparaître». Sobre a Noosphère, diz-nos ainda Martelet que «La véritable identité de la Noosphère, c’est donc l’humanité elle-même en tant qu’elle est la responsable des corrélations innombrables qui doivent humaniser la Terre». Percorremos, assim, a concepção evolucionista de Teilhard da génese do ser humano («super-évolution humaine»), conduzindo-nos à sua noção de Ultra-Humain, i.e., «que l’étreinte totalisante à laquelle nous sommes soumis ait pour conséquence, non point de nous déshumaniser par mécanisation, mais de nous sur-humaniser, par intensification de nos puissances de comprendre et d’aimer». Foi muito discutida entre os membros do grupo esta visão «optimista» de Teilhard quanto ao êxito final do processo da evolução (espiritual e material) da humanidade, tendo sido avaliada a aparente incompatibilidade dela com o estado actual do Mundo. Recordámos, contudo, que Teilhard traça esta marcha da humanidade na base da sua observação do «Fenómeno Humano», mas no seu próprio livro que tem este título não deixa de advertir que o Homem, no uso colectivo da liberdade, pode acabar por escolher caminhos que levem ao seu recuo.  O capítulo termina com uma afirmação de esperança em todo este processo: «Alors, sans crainte de se leurrer lui-même – puisqu’il aura découvert sa transcendance structurellement relationelle à Dieu – l’être humain pourra se jeter dans les bras d’Oméga, c’est-à-dire dans les bras du Christ universel, et découvrir ainsi par Lui ce que Teilhard appella “une nouvelle face de Dieu”». 

Porto  

  • Este grupo  terminou a leitura de «O Meio Divino». 
  • O final do 2º capítulo contém uma oração consagrando o esforço e a aceitação em relação ao que nos rodeia e vem ao nosso encontro, cujo fecho reza:
    «Cada uma das nossas vidas é, por assim dizer, entrelaçada entre dois fios: o fio do desenvolvimento interior ao longo do qual se formam gradualmente as nossas ideias, afeições, atitudes humanas e místicas; e o fio do êxito exterior, segundo o qual nos encontramos, a cada momento, no ponto preciso aonde convergirá, para produzir em nós o efeito esperado de Deus, o conjunto das forças do Universo. Meu Deus, para que a todo o instante vós me encontreis tal como me desejais, e onde me esperais, isto é, para que vós me possuais plenamente, – por fora e por dentro de mim mesmo, – fazei que este duplo fio da minha vida eu o não rompa jamais.»

2 comentários a Temas de Leitura

  • Paulo Sá  diz:

    Boa Tarde:

    Temas de leitura bastante abrangentes e deveras interessantes.
    Obrigado
    Abraço

  • ana  diz:

    Realmente é incrível o esforço de Teilhard de Chardin o pensamento do homem para o conhecimento,sobre o ser humano além das regras que a igreja estabelece…
    E o porque só após a morte, uma opinião tão rica vem a ser divulgada?

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