Biografia

Teilhard-de-Chardin

Pierre Teilhard de Chardin

Ω

 

1 – Biografia de Pierre Teilhard de Chardin 

(Extraída do livro «Christ présent et universel» de André Dupleix e Évelyne Maurice, Mame-Desclée, Paris 2008, traduzida por Frederico de Melo Franco, vice-presidente da AAPTCP) 

O Padre Teilhard de Chardin, pelas ricas qualidades humanas, densidade de vida espiritual e inteligência prospetiva fora do comum que revelou, pertenceu à raça excecional dos pensadores suscetíveis de interessar às novas gerações. Pode assim voltar a dar sentido e sabor à vida destas, enquanto as faz descobrir a grandeza, a proximidade e a beleza de Deus. Para uma tal ação, em vez de nostalgia e de pesar são antes necessários ardor e coragem … 
Pierre Marie Joseph Teilhard de Chardin nasceu no 1.º de maio de 1881 no castelo de Sarcenat, perto de Clermont-Ferrand (n.t. em França), no seio de uma família da pequena nobreza rural. A sua educação foi simultaneamente rigorosa e muito flexível, tendo desde os seus primeiros anos desenvolvido logo um gosto pela natureza e pelas pedras. 
Terminados os estudos secundários, entrou em 1899 para os jesuítas em Aix-en-Provence, onde iniciou uma formação que durou treze anos e onde concretizou progressivamente o seu gosto pela investigação científica. Lá, tal como em Laval ou em Jersey (n.t. ilha inglesa), começou as suas longas meditações sobre a natureza. 
Em 1905 Teilhard foi nomeado professor de física e química no Cairo e em 24 de agosto de 1911 foi ordenado padre (n.t. em, Hastings, Inglaterra). Entre 1912 e 1914 prosseguiu os seus estudos científicos em Paris, em ligação com o Museu de História Natural, e trabalhou no laboratório do paleontólogo Marcellin Boule, com quem participou em pesquisas em Santander, Espanha. 
Em 1914 estalou a guerra (n.t. Primeira Grande Guerra 1914-18) e Teilhard foi mobilizado como maqueiro (n.t. tendo recusado ser capelão militar), vindo a declinar toda e qualquer promoção para se manter sempre junto aos seus homens. Esta experiência da Grande Guerra virá a ser decisiva na sua vida. 
Em 24 de outubro de 1916 o seu regimento apoderou-se de Douamont, tendo Teilhard de Chardin obtido pela sua bravura diversas citações, a medalha militar e a Legião de Honra. Também escreveu muito durante estes anos de guerra – não tendo aliás parado nunca mais – e começou a desenvolver os principais aspectos da sua visão do mundo. Em março de 1919 foi desmobilizado, tendo voltado durante algum tempo a residir em Jersey onde escreveu «O poder espiritual da Matéria», cujas formulações não habituais começaram logo a provocar reações naqueles que não o compreendiam. 
Teilhard retornou depois aos seus trabalhos em Paris e preparou um doutoramento que terminou em 1920. O seu interesse dirigiu-se primeiro para os fósseis humanos e depois para os mamíferos do terciário, tendo defendido com sucesso, em 22 de março de 1922, uma tese sobre «Os mamíferos do Eocénico inferior francês e as suas jazidas». Regeu uma disciplina no Instituto Católico de Paris (n.t. instituição católica de ensino superior), fez conferências aos futuros professores e trabalhou com o sucessor de Bergson (n.t. grande filósofo francês) no Colégio de França (n.t. estabelecimento público de ensino e de investigação), Édouard Le Roy. E é então que se produziu um acontecimento que foi decisivo para o resto da sua vida: uma primeira viagem à China, para a qual embarcou com uma ordem de missão para colaborar com o Padre Licent, responsável de um importante laboratório em Tien-Tsin, correspondente do Museu de Paris. 
A descoberta da China foi um choque para Teilhard, que escreveu regularmente as suas impressões, bem como diversos textos, entre os quais «A Missa sobre o Mundo». Regressou depois a França e em 1924 retomou um ciclo de conferências para os estudantes das Grandes Escolas (n.t. estabelecimentos de ensino superior, fora do sistema universitário francês), conjuntamente com o ensino no Instituto Católico de Paris. E os seus auditores, entusiasmados, comunicaram rapidamente entre si as notas que foram tomando. 
Para tentar conciliar as suas novas descobertas com o dogma clássico do «pecado original» elaborou algumas páginas para uso privado, destinadas a um dos teólogos seus amigos. Mas os documentos chegaram até Roma e Teilhard viu-se privado da regência da sua disciplina, tendo-lhe sido solicitado que regressasse à China. 
Este exílio irá converter a China no seu país durante os vinte anos seguintes, apesar das numerosas viagens que fará pelo mundo. Trabalhará com o serviço geológico americano de Pequim, continuará a escrever quotidianamente as suas reflexões e iniciará aquela que virá a ser a obra chave da sua espiritualidade: «O Meio Divino».
Teilhard tornou-se rapidamente o melhor conhecedor da China Setentrional do ponto de vista geológico e um dos especialistas mundiais da estratigrafia, tendo participado directamente na descoberta do sinantropo (n.t. representante da espécie homo erectus, que existiu entre há 2 milhões e há 250 mil anos, e que atualmente está classificado como homo erectus pekinensis). A 28 de dezembro de 1929 Marcellin Boule recebeu o seguinte telegrama da China: Saudações ano novo. Descobrimos em Chou-kou-tien crânio sinantropo adulto não esmagado, intato exceto rosto…. Esta descoberta foi então muito importante para a paleontologia e Teilhard escreveu as primeiras páginas da sua obra-mestra «O Fenómeno Humano».
De maio de 1931 a fevereiro de 1932 participou, como cientista, na expedição Citroën, designada «Cruzeiro Amarelo», na Ásia Central, feito heróico que combinou a contribuição da ciência com os progressos mecânicos do automóvel. Esta travessia permitiu-lhe efectuar observações humanas e religiosas importantes. Regressou a Paris e depois empreendeu uma nova série de viagens de estudo, em particular no Oregão, nos Estados Unidos.
Em 1933 o mundo europeu começou a agitar-se e o jesuíta deu conta das suas inquietações ao Padre de Lubac (n.t. teólogo jesuíta francês, amigo de Teilhard e futuro cardeal). 
Em maio de 1934 Teilhard encontrava-se em pleno período de verificações e interpretações no terreno onde eram efectuadas as descobertas, tendo subido o rio Iansequião até aos primeiros contrafortes do Tibete. Depois de uma breve estadia em França, partiu para as Índias e, com os seus colaboradores, contribuiu para o estabelecimento de hipóteses sobre a pré-história indiana.
Convidado pelo professor von Koenigswald (n.t. paleontólogo e geólogo alemão, especializado em fósseis do Sudoeste Asiático), fez escala em Java, onde tinha sido descoberto um segundo crânio mais completo que o primeiro e regressou a Pequim em janeiro de 1936.
Apesar de ter a saúde fragilizada, Teilhard continuou a multiplicar os seus contactos e partiu para os Estados Unidos, de barco. A bordo escreveu «O Fenómeno Espiritual». 
Em 1937 Teilhard, por ocasião do congresso de Filadélfia, recebeu a medalha Mendel, em reconhecimento dos seus trabalhos e reembarcou para Pequim. Durante a travessia escreveu «A Energia Humana». Em 1938 partiu para a Birmânia para trabalhar com Helmut de Terra (n.t. antropólogo e geólogo alemão) no vale do Irauádi. Seguiu-se uma última expedição a Java e regressou a França entre novembro de 1938 e junho de 1939. 
Alojou-se em Paris na residência da revista Études (n.t. revista jesuíta fundada em 1856 e ainda hoje em publicação) e fez uma série de conferências em Toulouse, a pedido do seu amigo Monsenhor Bruno de Solages, reitor do Instituto Católico. Depois em Paris retomou um ciclo restrito de encontros. A 24 de junho partiu de novo para os Estados Unidos onde se encontrou com o Professor Walter Granger (n.t. paleontologista americano) no Museu de História Natural de Nova Iorque. Depois seguiu para a China, onde fundou, com o Padre Pierre Leroy (n.t. sacerdote jesuíta e cientista), o Instituto de Geobiologia de Pequim. No dia 1.º de maio de 1941 Teilhard completou sessenta anos. 
Teilhard tinha chegado a pensar redigir toda a história zoológica da China, mas os acontecimentos precipitaram-se e conformou-se em não poder satisfazer este seu desejo. Acabou por abandonar definitivamente a China, à beira de se transformar numa «república popular». 
De seguida passou cinco anos em Paris onde, em 1947, participou num colóquio internacional de paleontologia em que encontrou numerosos sábios que se tinham tornado seus amigos, entre os quais o Professor Lucien Cuénot (n.t. biólogo e geneticista francês). Mas a doença perseguia-o e a usura e o ritmo incessante do seu trabalho e das suas investigações acabaram por lhe causar um enfarte de miocárdio, a 1 de junho de 1947. 
À provação física sucedeu a provação moral. Teilhard teve que se explicar em Roma sobre o conteúdo dos seus escritos, o que aceitou com calma e relativa confiança. Mas a deceção foi grande, tendo-lhe sido recusada autorização para aceitar uma cátedra no Colégio de França e para mandar imprimir o seu ensaio «O fenómeno humano». Aceitou, mas no seu íntimo sofreu com esta nova situação desgastante e difícil. 
Mais uma vez, Teilhard foi mandado sair de Paris. Contudo estreitou-se à sua volta um círculo importante de amigos e intelectuais que o encorajaram e incitaram a prosseguir. Foi condecorado como oficial da Legião de Honra (n.t. mais importante condecoração honorífica francesa), na secção dos negócios estrangeiros, tendo sido referido na respectiva citação: considerado nos domínios da geologia e da paleontologia como uma glória da ciência francesa. Em repouso no castelo de Moulins, em Neuville, pertencente a seu irmão Joseph, recebeu muita gente dos meios universitários, filosóficos e científicos. 
Em julho de 1951 fez uma primeira viagem à África do Sul, para continuar a investigar as jazidas dos fósseis de australopitecos (n.t. género de hominídeos extintos, bastante próximos do género humano), tendo prosseguido a sua escrita pessoal enquanto coordenou as pesquisas.
A partir de 1951, Teilhard estabeleceu-se definitivamente em Nova Iorque, na fundação Wenner (n.t. fundação privada americana apoiante da investigação em todos os ramos da Antropologia) e frequentou regularmente a residência dos jesuítas. Em 1952 realizou uma viagem científica ao sul dos Estados Unidos e, em seguida, a fundação Wenner pediu-lhe para voltar à África do Sul, onde fez numerosas observações na savana africana. Os seus contatos com os especialistas e os sábios continuaram a ser numerosos. 
O tempo passou e Teilhard sentia-o, tendo escrito em Nova Iorque: não senti nunca, tão vivamente, que toda a inspiração e toda a força vinham de Deus. Durante o verão de 1954 voltou pela última vez a França, à sua casa natal, e depois de regressado a Nova Iorque coligiu as grandes linhas do seu pensamento. 
A 15 de março de 1954, durante um jantar no consulado da França, disse aos que lhe estavam próximos: gostaria de morrer no dia da Ressurreição. No início de 1955 escreveu o seu derradeiro texto «O Crístico». 
No domingo 10 de abril de 1955, dia de Páscoa … Teilhard, depois de celebrar uma missa matinal, assistiu à celebrada na catedral de S. Patrício. De tarde, ao regressar de um concerto, parou na casa de amigos, mas uma dor fulgurante fê-lo desmaiar. Ao voltar a si, disse simplesmente: desta vez é terrível…e sucumbiu. 
Segundo os usos americanos, Pierre Teilhard foi embalsamado. A celebração do funeral, presidida pelo Padre de Breuvery (n.t. sacerdote jesuíta e geógrafo francês), foi realizada na maior simplicidade na capela da residência jesuíta, perante uma dezena de pessoas, entre as quais o embaixador de França na ONU e o Padre Leroy, chegado na véspera. O corpo foi depois transportado para o cemitério do noviciado, a cerca de sessenta quilómetros, onde ainda hoje se encontra numa sepultura simples, encimada por uma cruz e com a seguinte legenda: Pierre Teilhard de Chardin, S.J., 1881-1955.
A partir dos meses seguintes, a nomeada do Padre Teilhard de Chardin espalhou-se definitivamente e alcançou – depois de um período de silêncio durante os anos setenta – o fulgor universal que hoje lhe é reconhecido. 

2  –  Biografia Weblink 

(segundo Wikipédia)

Pierre Teilhard de Chardin (Orcines, 1 de maio de 1881Nova Iorque, 10 de abril de1955) foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. Através de suas obras, legou para a sua posteridade uma filosofia que reconcilia a ciência do mundo material com as forças sagradas do divino e sua teologia. Disposto a desfazer o mal entendido entre a ciência e a religião, conseguiu ser mal visto pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi proibido de lecionar, de publicar suas obras teológicas e submetido a um quase exílio na China.
“Aparentemente, a Terra Moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O Homem bastando-se a si mesmo. A Razão substituindo-se à Crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que esta era decididamente chamada a tomar o lugar daquela. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito.”
(Teilhard de CHARDIN, O Fenómeno Humano)
Criado em uma família profundamente católica, Chardin entrou para o noviciado da Companhia de Jesus em Aix-en-Provence no ano de 1899 e para o juniorado em 1900, em Laval. Era a época das reformas liberais de Waldeck-Rousseau, que retirara das universidades católicas o direito de conceder graus e posteriormente dissolveu as ordens religiosas e expulsou vinte mil religiosos da França.1 Por este motivo, teve que deixar a França e os seus estudos prosseguiram na ilha de Jersey, Inglaterra, onde cursou filosofia e letras. Licenciou-se neste curso em 1902. Entre 1905 e 1908 foi professor de física e química no colégio jesuíta da Sagrada Família do Cairo, no Egito, onde teve oportunidade de continuar suas pesquisas geológicas, iniciadas na Inglaterra. Seus estudos de teologia foram retomados em Ore Place, de 1908 a 1912. Ordenou-se sacerdote em 1911.
Entre 1912 e 1914 cursou paleontologia no Museu de História Natural de Paris. Foi a sua porta de entrada na comunidade científica. Durante seus estudos teve a oportunidade de visitar os sítios pré-históricos do noroeste da Espanha, entre eles, a Caverna de Altamira.
Durante a Primeira Guerra Mundial, foi carregador de maca dos feridos e depois capelão em diversas frentes de batalha.
Passada a Guerra, retomou os estudos em Paris, onde obteve o doutorado em 22 de março de 1922 na Universidade de Sorbonne com a tese: Os mamíferos do eoceno inferior francês e seus sítios. Em 1920 tornara-se professor de geologia no Instituto Católico de Paris. O ambiente intelectual de Paris proporcionou-lhe encontros fecundos para o exercício intelectual. Costumava apresentar suas ideias a plateias de jovens leigos, seminaristas e professores. Do ponto de vista teológico, já assumira as ideias evolucionistas e realizava uma síntese original entre a ciência e a fé cristã.
Em 1922, escreveu Nota sobre algumas representações históricas possíveis do pecado original, que gerou um dossiê pela Santa Sé, acusando-o de negar o dogma do pecado original. Teve que assinar um texto que exprimia este dogma do ponto de vista ortodoxo e foi obrigado a abandonar a cátedra em Paris e embarcar para Tianjin na China. Este fato marcará uma nova etapa da sua vida: o silêncio sobre temas eclesiais e teológicos que duraria o resto da sua vida. Foi-lhe permitido trabalhar em pesquisas científicas e suas publicações deveriam ser cuidadosamente revisadas.
Embora proibido de escrever sobre temas eclesiais e teológicos, seus superiores imediatos estimularam suas pesquisas e escritos, desde que sua ortodoxia fosse assegurada por uma séria revisão, com a esperança de uma publicação posterior.
Em Pequim, realizou diversas expedições paleontológicas, e em 1929 participou da descoberta e estudo do sinantropo – o homem de Pequim. Também realizou pesquisas em diversos lugares do continente asiático, como o Turquestão, a Índia e a Birmânia.
Entre novembro de 1926 e março de 1927, estimulado pelo editor da coleção de espiritualidade Museum Lessianum, escreveu O Meio Divino a partir de suas notas de retiro. A obra foi submetida a dois censores romanos, que a consideraram aceitável. Ao ser submetida ao Imprimatur, o cônego encarregado submete a obra a teólogos romanos, que a consideraram suspeita pela originalidade. Apesar disto, cópias inéditas da obra passaram a circular, datilografadas e policopiadas.
Em Pequim, escreveu sua obra prima: O Fenômeno Humano. Encaminhou a obra a Roma em 1940, que prometeu o exame por teólogos competentes. Várias revisões foram encaminhadas sem que o nihil obstat fosse concedido.
Em 1946 retornou a Paris. Seus textos mimeografados continuavam a circular e suas conferências lotavam os auditórios. Foi convidado a lecionar no Collège de France. Diante de ameaças de novas sanções pela Santa Sé, dirige-se a Roma em 1948. A visita foi inútil: foi proibido de ensinar no Colégio da França e a publicação do Fenômeno Humano não foi autorizada.
Entre 1949 e 1950 deu cursos na Sorbonne que geraram a obra O grupo zoológico humano. Em 1950 foi eleito membro da Academia de Ciências do Instituto de Paris.
Em 1950, foi promulgada a encíclica Humani Generis pelo papa Pio XII, que na opinião de Chardin, bombardeava as primeiras linhas de seu trabalho.
Em 1951, mudou-se para Nova York, a convite da Fundação Wenner-Gren, que patrocinou duas expedições científicas na África para pesquisar sobre as origens do homem sob sua coordenação.
Teilhard de Chardin faleceu em 10 de abril de 1955, num domingo de Páscoa, em Nova York. No campo científico deixou uma obra vasta: cerca de quatrocentos trabalhos em vinte revistas científicas.
No campo filosófico, seu pensamento pode ser editado por um comitê internacional porque ele deixou do direito de suas obras para um colega, não para a sua ordem religiosa. No mesmo ano de sua morte, as Éditions du Seuil lançaram o primeiro volume das Ouevres de Teilhard de Chardin.
O Santo Ofício solicitou ao Arcebispo de Paris que detivesse a publicação das obras. Em 1962, um Monitum deste mesmo órgão decidiu que estes livros fossem retirados das bibliotecas dos seminários e institutos religiosos, não fossem vendidos nas livrarias católicas e não fossem traduzidos. Este decreto não teve muita adesão. Cinco anos mais tarde, uma advertência foi publicada, solicitando aos padres, superiores de Institutos Religiosos, seminários, reitores das Universidades que protejam os espíritos, principalmente o dos jovens, contra os perigos da obra de Teilhard de Chardin e seus discípulos. Segundo esta advertência, “sem fazer nenhum juízo sobre o que se refere às ciências positivas, é bem manifesto que, no plano filosófico e teológico, estas obras regurgitam de ambiguidades tais e até de erros graves que ofendem a doutrina católica”.
A sua obra continuou a ser editada, chegando ao décimo terceiro volume em 1976, pelas Éditions du Seuil e foi traduzida em diversos idiomas. Seu trabalho teve grande repercussão, gerando diversos estudos a cerca de sua obra até nos dias atuais.
Apesar de toda a repressão, suas ideias foram sendo incorporadas ao discurso oficial da Igreja, como depreende-se da mensagem do Papa Bento XVI por ocasião da Festa da Santíssima Trindade de 2009, dirigida aos fieis em Roma: “Em tudo o que existe, encontra-se impresso, em certo sentido, o “nome” da Santíssima Trindade, pois todo o ser, até as últimas partículas, é ser em relação, e deste modo se transluz o Deus-relação; transluz-se, em última instância, o Amor criador. Tudo procede do amor, tende ao amor e se move empurrado pelo amor, naturalmente, segundo diferentes níveis de consciência e de liberdade.”“Utilizando uma analogia sugerida pela biologia, diríamos que o ser humano tem no próprio “genoma” um profundo selo da Trindade, do Deus-Amor”.2 E ainda mais claro, no dia 24 de Julho em Aosta, Italia o Papa Bento XVI diz: “Nós mesmos, com todo o nosso ser, temos que ser adoração e sacrifício, restituir o nosso mundo a Deus e assim transformar o mundo. A função do sacerdócio é consagrar o mundo a fim de que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia: que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que depois teve também Teilhard de Chardin: no final teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se torne hóstia viva.”3